O governo federal enviou nesta quarta-feira (15) ao Congresso Nacional o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027 com uma projeção de salário mínimo de R$ 1.717, com vigência a partir de janeiro e pagamento a partir de fevereiro.
O valor, porém, não é definitivo. O piso exato só será calculado em dezembro, após a divulgação do INPC de novembro — índice que compõe a fórmula de correção adotada pelo governo.
Como funciona o cálculo do reajuste
A metodologia em vigor combina a inflação do ano anterior com o crescimento do PIB de dois anos antes. O modelo foi adotado no início do terceiro mandato de Lula, retomando a fórmula usada no governo Dilma Rousseff.
Em 2024, porém, o Congresso aprovou uma limitação proposta pela equipe econômica: o aumento real — ou seja, acima da inflação — ficou limitado a 2,5%, o mesmo teto do arcabouço fiscal para as demais despesas públicas. A regra vale entre 2025 e 2030.
No governo Bolsonaro, a correção era feita apenas pela inflação do ano anterior, sem qualquer ganho real de poder de compra.
Quem depende do piso nacional
O salário mínimo é referência de renda para 61,94 milhões de pessoas no Brasil, segundo o Dieese. Desse total, 29,27 milhões são beneficiários do INSS — aposentados, pensionistas e segurados — com rendimentos diretamente atrelados ao piso. O Benefício de Prestação Continuada (BPC) também segue o mesmo valor.
O instituto calcula ainda que o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ter sido de R$ 7.425,99 — ou 4,58 vezes o piso atual de R$ 1.621. O parâmetro é a determinação constitucional que exige cobertura de alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência. Levantamento do Dieese e da Conab divulgado em março mostrou que o salário necessário para sustentar uma família seria de R$ 7.164,94 — quase quatro vezes o valor de R$ 1.717 projetado para 2027.
O peso fiscal do reajuste
O debate em torno do salário mínimo vai além do impacto direto na renda dos trabalhadores. Economistas alertam que reajustes reais — acima da inflação — pressionam os gastos públicos e, por consequência, os juros da economia.
Só a limitação do aumento real a 2,5%, aprovada no fim de 2024, já deve gerar uma redução de R$ 110 bilhões nos gastos com benefícios previdenciários e assistenciais entre 2025 e 2030, segundo o governo.
Um estudo do consultor de Orçamento da Câmara Paulo Bijos, ex-secretário de Orçamento Federal, projeta uma economia superior a R$ 1 trilhão em dez anos caso o governo adote a correção apenas pela inflação — o modelo do período Bolsonaro. Parte dos analistas defende essa “desindexação” como caminho para um ajuste fiscal mais robusto.
O salário mínimo foi instituído em janeiro de 1936, no governo Getúlio Vargas, pela Lei 185. Em 2026, o instituto completou 90 anos de existência — e segue no centro do debate sobre distribuição de renda e sustentabilidade fiscal do país.
