O Banco Central classificou como “modesto” o crescimento da produtividade do trabalho no Brasil entre 2019 e 2025, com média de apenas 0,6% ao ano. O dado consta do relatório de política monetária divulgado no fim de março e chega em momento decisivo para a proposta de redução da jornada semanal.
Sem avanços expressivos de eficiência, cortar horas trabalhadas tende a encarecer a produção — custo que empresas e entidades alertam poder ser repassado ao consumidor.
O que o BC identificou
Segundo o Banco Central, o desempenho favorável da produtividade se concentrou na agropecuária e na migração de trabalhadores para atividades mais produtivas. Os demais segmentos registraram contribuições modestas ou até negativas para o índice agregado.
A conclusão enfraquece um dos argumentos dos defensores da jornada menor: o de que ganhos de eficiência compensariam a redução de horas. Para a autoridade monetária, a contribuição da produtividade para reduzir custos do trabalho tem sido limitada.
Calendário legislativo e posição do governo
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), informou que a PEC que encerra a escala 6×1 deve ser votada na CCJ na próxima semana e em plenário até o fim de maio. O ministro Guilherme Boulos (PSOL), da Secretaria-Geral da Presidência, confirmou que o governo prepara proposta própria para envio ao Congresso — com mudanças sem redução salarial.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, defendeu que a redução da jornada é uma demanda cobrada pela sociedade e destacou que algumas empresas já adotam voluntariamente escalas menores.
A estagnação apontada pelo BC não é novidade no debate. Estudo da Fiep com a Tendências Consultoria já alertava que a produtividade brasileira permanece praticamente estagnada há décadas — e projetava queda de até 3,7% no PIB no primeiro ano caso a jornada fosse reduzida sem ganhos de eficiência.
Impacto estimado nas empresas e na economia
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calculou que reduzir o limite semanal de 44 para 40 horas elevaria imediatamente o valor da hora trabalhada regular para contratos que hoje superam esse limite. Com isso, haveria queda de produção não compensada por novas contratações.
A entidade estima uma queda de 0,7% do PIB, equivalente a R$ 76,9 bilhões em perdas para a economia brasileira.
Richard Domingos, diretor executivo da Confirp Contabilidade, reconheceu que o debate sobre qualidade de vida é legítimo, mas ponderou que o desemprego historicamente baixo já dificulta contratações — tornando ainda mais complexo absorver a redução de horas sem impacto nos negócios.
Benito Pedro Vieira Santos, CEO da Avante Assessoria Empresarial, alertou que setores com cobertura contínua — indústria, logística, varejo e serviços — serão os mais afetados, com reflexos em toda a cadeia de fornecedores e clientes. Segundo ele, as empresas podem enfrentar simultaneamente aumento de custos, pressão salarial e necessidade de reorganizar escalas.
O avanço da PEC, no entanto, foi condicionado por Motta à convergência real entre governo e setor produtivo — cenário que, diante dos dados do Banco Central sobre produtividade, permanece incerto.
