A OpenAI, criadora do ChatGPT, publicou um relatório propondo que os ganhos de produtividade gerados pela inteligência artificial sejam convertidos em mais tempo livre para os trabalhadores — e não apenas em lucro para as empresas.
O documento, intitulado “Política Industrial para a Era da Inteligência”, foi divulgado neste mês e reconhece que “alguns empregos desaparecerão” com o avanço da IA, enquanto indústrias inteiras serão remodeladas em velocidade sem precedentes.
Entre as propostas está o incentivo a testes com semanas de quatro dias — 32 horas semanais — sem redução de salários.
O relatório detalha uma série de medidas que empresas e governos deveriam adotar diante da automação crescente. A proposta mais concreta é o incentivo a experimentos com a semana de quatro dias de trabalho, mantendo os níveis de produção e serviço.
Segundo o documento, o tempo economizado com a automação de tarefas repetitivas e administrativas deveria ser “devolvido” aos trabalhadores, seja em folgas adicionais ou em jornadas mais curtas.
Benefícios além da jornada
Além da redução de horas, o relatório sugere que as empresas ampliem contribuições para aposentadoria e ofereçam suporte para cuidados com filhos e idosos — uma visão de bem-estar que vai além do salário.
Outro ponto central é a participação formal dos trabalhadores nas decisões sobre adoção de IA. A OpenAI defende que funcionários ajudem a definir como a tecnologia será usada nas empresas.
A prioridade, segundo o documento, deveria ser a redução de tarefas perigosas ou exaustivas — não o aumento de produtividade ou a vigilância no ambiente de trabalho.
O documento ainda propõe a criação de um fundo para redistribuir parte dos ganhos econômicos gerados pela IA à população em geral, independentemente da renda.
Por fim, a empresa defende que a IA seja tratada como infraestrutura essencial — semelhante à eletricidade e à internet — com versões acessíveis para pequenos negócios e comunidades de baixa renda.
A proposta ganha contornos mais complexos quando se observa o contexto financeiro da empresa. A OpenAI captou US$ 122 bilhões em abril e hoje é avaliada em US$ 852 bilhões — o que levanta questões sobre se o discurso em torno dos “benefícios sociais da IA” acompanha, de fato, as decisões de negócio da companhia.
No Brasil, o debate sobre redução de jornada já tem números concretos. Um estudo da Fiep projeta queda de até 3,7% no PIB no primeiro ano caso a semana de trabalho seja reduzida para 36 horas — cenário que contrasta com o otimismo da OpenAI sobre os ganhos de produtividade que a automação traria.
Discurso e responsabilidade corporativa
O relatório representa uma mudança de tom por parte da OpenAI. Ao admitir que empregos serão eliminados e ao propor mecanismos redistributivos, a empresa entra em território tipicamente reservado a governos e sindicatos.
Historicamente, a bigtech priorizou a narrativa de inovação tecnológica, minimizando os impactos sociais de seus produtos.
A questão central é se as empresas de tecnologia serão capazes de autorregular seus impactos — ou se o avanço da IA exigirá marcos regulatórios para garantir que os ganhos de produtividade não fiquem concentrados entre acionistas e executivos.
