O Brasil bate recordes de endividamento às vésperas de 2026: 80,4% das famílias têm dívidas ativas — o maior percentual da série histórica da CNC — e 81,7 milhões de adultos estão com o CPF negativado, segundo a Serasa.
O cenário virou pauta obrigatória no Palácio do Planalto e munição para a oposição. O novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, recebeu de Lula a missão de atacar o problema antes que ele defina o resultado das urnas em outubro de 2026.
Os dados mostram a extensão do problema. Levantamento do Banco Central revela que quase metade da renda dos brasileiros já está comprometida com cartão de crédito, empréstimos e financiamentos — patamar próximo ao registrado no fim do governo Bolsonaro, em 2022.
As tratativas com os bancos começaram ainda em março, quando o comprometimento de renda das famílias voltou ao maior nível da série histórica do Banco Central, antecipando o programa de refinanciamento agora em elaboração pelo governo federal.
Na terça-feira (7), Lula e Durigan se reuniram para fechar os contornos do novo programa. A proposta permite trocar todas as dívidas por uma única, com juros menores e desconto que pode chegar a 80% em alguns casos. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, defende ainda o uso do FGTS: segundo cálculos da pasta, cerca de 10 milhões de brasileiros poderiam acessar R$ 7 bilhões do fundo para quitar débitos.
Durigan assumiu a Fazenda em março no lugar de Fernando Haddad, que deixou o ministério para concorrer ao governo de São Paulo, e já recebeu de Lula como missão prioritária enfrentar o endividamento das famílias brasileiras. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, confirmou que o tema é a principal preocupação de Lula.
O número de inadimplentes cresceu 38% em dez anos, saltando de 59 milhões para 81,7 milhões de brasileiros com o nome negativado, segundo o Mapa da Inadimplência divulgado pela Serasa no fim de março. Hoje, metade dos adultos do país está nessa situação.
Oposição transforma dívidas em combustível eleitoral
Os pré-candidatos de oposição foram rápidos em explorar o cenário. Flávio Bolsonaro (PL) gravou vídeo nas redes sociais destacando o encarecimento de alimentos, combustível e energia no cotidiano dos brasileiros. Ronaldo Caiado (PSD) criticou a alta dos alimentos, a inflação e os juros elevados como marcas do governo.
O diretor da Quaest, Felipe Nunes, avalia que a percepção econômica negativa deve ganhar peso inédito no debate eleitoral de 2026. “Mesmo com o aumento da renda, o custo de vida subiu no mesmo ritmo ou até mais, o que não gera sensação de bem-estar”, afirmou. Em março, 64% dos entrevistados disseram que seu poder de compra piorou e 48% avaliaram que a economia está pior nos últimos 12 meses. A diferença entre desaprovação e aprovação do governo saltou de um ponto em dezembro para sete pontos em março.
Um dado que chama atenção no debate é a relação entre inadimplência e jogos online: pesquisa qualitativa citada no podcast O Assunto aponta que 29% dos entrevistados apostaram para tentar pagar contas e 27% buscavam renda extra. Entre os inadimplentes, 46% apostam regularmente.
A economista Camila Abdelmalack alerta que programas de renegociação trazem alívio imediato e podem melhorar a imagem do governo antes das eleições, mas não resolvem a recorrência estrutural da inadimplência no Brasil — e lembra do Desenrola Brasil, promessa de 2022, como exemplo de iniciativa sem solução definitiva. O programa de renegociação de dívidas se insere em um arsenal mais amplo: o governo montou o maior pacote de estímulos econômicos em anos, com mais de R$ 200 bilhões em isenção de IR, crédito consignado ampliado e habitação subsidiada.
