O cartão de crédito rotativo, linha de crédito mais cara do mercado financeiro brasileiro, quase alcançou R$ 400 bilhões em concessões durante 2025. Os dados são do Banco Central.
Cerca de 40 milhões de brasileiros estavam endividados nessa modalidade em janeiro deste ano — e mais de 63% do total emprestado não foi pago pelos tomadores.
Em resposta ao nível crítico de endividamento, o governo Lula articula um programa para unificar e refinanciar dívidas com descontos que podem chegar a 80% nos juros.
Da pandemia ao estouro do rotativo
Entre 2012 e 2020, o total anual de crédito concedido via cartão de crédito rotativo nunca ultrapassou R$ 225 bilhões. O Auxílio Emergencial, pago em 2020 e 2021, sustentou temporariamente o consumo e segurou o avanço das dívidas — mas o cenário mudou radicalmente com a saída da pandemia.
A partir de 2022, com o fim do auxílio e a aceleração da inflação — que bateu mais de 10% em 2021 e cerca de 5,8% em 2022 —, os brasileiros passaram a recorrer ao rotativo para cobrir despesas do dia a dia. A modalidade, pensada para uso emergencial, virou complemento de renda para milhões de famílias.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sinalizou preocupação com esse padrão no mês passado. Para ele, usar o rotativo como fonte regular é um problema que exige uma “discussão estrutural”, com foco em criar “arranjos mais saudáveis para quem está buscando crédito”.
Com 101 milhões de portadores de cartão no país — quase metade da população —, a inadimplência de 63,5% no rotativo revela a extensão do problema: a cada R$ 100 emprestados nessa linha, mais de R$ 60 não retornam aos credores. Os juros do rotativo chegaram a 436% ao ano em fevereiro, e uma lei de 2024 limita o endividamento total ao dobro da dívida original — mas sem reduzir o custo do crédito para quem já está preso nessa armadilha.
O que o governo planeja para aliviar as famílias
Com um olho nas eleições de 2026, o governo movimenta a Fazenda para enfrentar o endividamento da população. A estratégia central é um programa de refinanciamento que unificaria dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal em um único contrato, com descontos de 30% a 80% nos juros — podendo chegar a 90%. As medidas foram confirmadas pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan.
O comprometimento de renda das famílias voltou a 29,3% em janeiro — o maior patamar da série histórica —, dado que levou a Fazenda a chamar os bancos para negociar alternativas ao crédito caro.
Outra frente prevê autorizar o uso de recursos do FGTS para quitar dívidas, com tetos para não esvaziar o fundo. Conforme o programa em elaboração detalha, a consolidação pode contar com descontos de até 80% no principal e o Fundo de Garantia de Operações como incentivo para os bancos aderirem.
Paralelamente, o governo já havia lançado em 2024 o crédito consignado para trabalhadores do setor privado, com taxas menores. Em um ano, mais de R$ 80 bilhões foram liberados. A regulamentação do FGTS como garantia dessa linha, prometida como diferencial para baratear o crédito, ainda não foi implementada.
