A montadora chinesa BYD e o cantor Amado Batista figuram na nova atualização da “lista suja” do trabalho escravo, divulgada nesta segunda-feira (6) pelo Ministério do Trabalho. Ao todo, 169 empregadores foram incluídos no cadastro público após operações de fiscalização em todo o país.
Os novos casos resultaram no resgate de 2.247 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão. Com a atualização, o total de empregadores no cadastro chega a aproximadamente 613 nomes.
BYD e trabalhadores chineses em Camaçari
A inclusão da BYD decorre do resgate de 220 trabalhadores chineses em dezembro de 2024, durante a construção da fábrica da montadora em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (BA). Os funcionários foram encontrados em alojamentos superlotados e sem condições básicas de higiene, vigiados por seguranças armados que impediam a saída do local.
Passaportes retidos, contratos com cláusulas ilegais, jornadas exaustivas e ausência de descanso semanal marcaram as irregularidades apontadas pelas autoridades. Um dos trabalhadores ouvidos pelo MPT-BA atribuiu um acidente com uma serra à exaustão provocada pela falta de folgas. Todos entraram no país com vistos que não correspondiam às atividades desempenhadas na obra.
À época, a BYD atribuiu as irregularidades à construtora terceirizada Jinjiang Construction Brazil Ltda e encerrou o contrato com a empresa. No fim de 2025, o MPT-BA firmou um acordo de R$ 40 milhões com a montadora e duas empreiteiras, após ação civil pública por trabalho análogo à escravidão e tráfico de pessoas. Em nota, a BYD afirma manter compromisso inegociável com os direitos humanos.
Dos 169 novos empregadores incluídos, 102 são pessoas físicas e 67 são pessoas jurídicas — crescimento de 6,28% em relação à última atualização. Os casos abrangem o período entre 2020 e 2025 e foram registrados em 22 estados brasileiros. Ao mesmo tempo, 225 empregadores foram removidos do cadastro por terem cumprido o prazo de dois anos de permanência.
O Ministério do Trabalho, que em março lançou campanha pelo trabalho decente na cafeicultura, amplia agora o combate nacional ao incluir 169 novos empregadores no cadastro semestral.
Três décadas de fiscalização e regras de saída antecipada
O Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM), responsável pelas operações de resgate em todo o território nacional, completou 30 anos em 2025. Desde sua criação, em 1995, mais de 68 mil trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão, com mais de R$ 160 milhões em verbas salariais e rescisórias assegurados pela Auditoria-Fiscal do Trabalho.
Criada em 2004, a “lista suja” passou por instabilidades nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Sua divulgação chegou a ser suspensa entre 2014 e 2016, até que o Supremo Tribunal Federal reconheceu a constitucionalidade do documento.
Uma portaria de julho de 2024 introduziu a possibilidade de retirada antecipada do cadastro para empregadores que firmarem termo de ajustamento de conduta. A saída exige indenização às vítimas de ao menos 20 salários mínimos e investimento em programas de apoio aos trabalhadores resgatados. Quem descumprir os compromissos ou reincidir retorna automaticamente à lista. Os empregadores nessa condição passam a integrar o Cadastro de Empregadores em Ajustamento de Conduta.
Denúncias de trabalho escravo podem ser feitas anonimamente pelo Sistema Ipê, canal digital lançado em 2020 pela Secretaria de Inspeção do Trabalho em parceria com a Organização Internacional do Trabalho.
