Com as eleições presidenciais de outubro no horizonte, o governo Lula montou o maior arsenal de estímulos econômicos em anos: isenção de IR para 15 milhões de pessoas, novos programas sociais, crédito consignado ampliado e habitação subsidiada em escala recorde.
O conjunto movimenta mais de R$ 200 bilhões na economia brasileira só em 2026. A contrapartida, alertam economistas, é pressão inflacionária crescente e uma dívida pública que não para de subir.
O que muda no bolso do brasileiro
A principal novidade tributária é a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil, com alíquota reduzida para rendimentos até R$ 7.350. Em vigor desde janeiro, a mudança beneficia 15 milhões de pessoas e representa renúncia fiscal estimada entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões, segundo BTG Pactual e ARX Investimentos. O Ministério da Fazenda não divulga projeção própria.
No campo dos programas sociais, o Gás do Povo e o Luz do Povo somam R$ 15,5 bilhões em alívio para famílias de baixa renda em 2026 — alta de R$ 3,6 bilhões sobre o ano anterior. O Gás do Povo mais que triplicou a base de atendidos: de 4,5 milhões para 15 milhões de famílias, com direito a 4 a 6 recargas de botijão por ano, a um valor médio nacional de R$ 110. O Luz do Povo deve ampliar a cobertura de 16,7 milhões para 20,9 milhões de residências, com gratuidade para famílias com renda de até meio salário-mínimo por pessoa e consumo de até 80 kWh mensais.
No crédito, o destaque é o Crédito do Trabalhador, consignado privado criado em março de 2025. Até 16 de março deste ano, R$ 26 bilhões em novos empréstimos já haviam sido concedidos — metade do total liberado em 2025 inteiro. A ARX Investimentos projeta R$ 134 bilhões em novas operações até dezembro.
O Minha Casa Minha Vida avança com orçamento recorde. O programa ampliou o limite de renda de R$ 12 mil para R$ 13 mil e o teto dos imóveis de R$ 500 mil para R$ 600 mil. A meta é 3 milhões de unidades contratadas até o fim do ano — quase o dobro da média dos três primeiros anos de mandato. Duas novidades de 2025, a faixa 4 do MCMV e o Reforma Casa Brasil, devem movimentar R$ 46 bilhões só em 2026, ante R$ 8 bilhões no ano passado.
O pacote de R$ 30 bilhões para conter o preço do diesel — combinando isenção de PIS/Cofins com subvenção a importadores — chegou em meio à ameaça de greve de caminhoneiros e será compensado por um novo imposto sobre exportações de petróleo. O BNDES fecha o quadro: após liberar R$ 169,7 bilhões em 2025 (alta de 27% sobre 2024), a expectativa é ultrapassar R$ 200 bilhões em 2026.
Entre os votos e os juros
O esforço eleitoral enfrenta um cenário macroeconômico adverso. O PIB cresceu apenas 2,3% em 2025 — e a projeção para 2026 cai para meros 1,8%, com a guerra entre EUA e Irã adicionando incerteza ao preço do petróleo e dos combustíveis. A Selic subiu de 10,5% ao ano em julho de 2024 para 15% — maior nível desde 2006 —, recuando levemente para 14,75% após o último Copom. A dívida pública saltou de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 78,7% em janeiro de 2026.
“Essa quantidade de grana movimentando a economia fez com que a Selic tivesse que ser 15%. Não fosse isso, poderia ser muito menor”, afirma Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da ARX Investimentos. Samuel Pessoa, da FGV e do BTG Pactual, acrescenta: “Quando você aumenta o consumo agregado sendo que a economia já opera a pleno emprego, isso gera pressão inflacionária. Aí tem que ter mais juros e a dívida pública vai crescer mais.”
Nas pesquisas, o impacto ainda não se traduz em vantagem. Pela primeira vez, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem empatados em 41% num eventual segundo turno, segundo a Quaest de março. Entre eleitores que ganham de dois a cinco salários-mínimos — justamente o público beneficiado pela reforma do IR —, o apoio a Lula recuou de 46% para 38% entre agosto de 2025 e março de 2026, enquanto Flávio subiu de 35% para 41% no mesmo grupo.
Para o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, a forte polarização limita o retorno eleitoral das políticas econômicas. “Não importa o que Lula faça. Um dos efeitos da polarização é diminuir o número de eleitores dispostos a mudar de ideia”, avalia. O paralelo com 2022 reforça o ceticismo: Bolsonaro lançou pacote de R$ 41 bilhões às vésperas do pleito, recorreu até à PEC Kamikaze — depois derrubada pelo STF —, e ainda assim perdeu o segundo turno.
