A 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo remeteu ao Supremo Tribunal Federal, no dia 17 de março, um inquérito da Polícia Federal que investiga denúncias de perseguição e ameaças contra o empresário Nelson Tanure, investigado no caso do Banco Master.
Vladimir Timerman, fundador da gestora Esh Capital, afirma ter sido alvo de monitoramento em tempo real, assédio judicial e intimidações após denunciar publicamente Tanure — que nega ser sócio ou beneficiário do banco.
O argumento que embasou o envio ao STF é o de que as ações sofridas por Timerman seguem o modus operandi de “A Turma”, o grupo de WhatsApp de Daniel Vorcaro documentado pela Polícia Federal nas investigações do caso Master.
Como o inquérito chegou ao Supremo
O inquérito foi aberto pela PF em São Paulo em 2024, depois que Timerman relatou ao Ministério Público Federal ter se tornado alvo de vigilância sistemática e assédio processual após fazer denúncias públicas contra Tanure.
As acusações iniciais abrangiam insider trading com ações da empresa Alliar — usando informações privilegiadas para lesar acionistas minoritários — e irregularidades na construtora Gafisa. Timerman também já apontava o Banco Master como peça da engenharia financeira usada por Tanure para assumir o controle da companhia.
Em resposta, Tanure e aliados moveram uma série de processos por difamação contra o gestor. O inquérito ficou paralisado desde 2024, até que Timerman protocolou, no dia 16 de março, uma petição de próprio punho pedindo que o caso subisse ao Supremo. O juiz Caio Greggio deferiu o pedido no dia seguinte.
O argumento central de Timerman se apoia no que a PF já documentou sobre os métodos d’A Turma: o grupo monitorava adversários, invadia sistemas sigilosos e planejava ações de intimidação contra quem contrariasse Vorcaro — exatamente o padrão que o gestor afirma ter sofrido. Para ele, cabe ao STF e à Procuradoria-Geral da República verificar se há conexão entre os fatos descritos e essa estrutura criminosa.
Tanure foi alvo de busca e apreensão na segunda fase da Operação Compliance Zero, em janeiro, suspeito de ser sócio oculto do banco e de participação nas fraudes do Master. Ele nega qualquer vínculo societário com a instituição.
Depoimento na CPI e repercussão
Em depoimento à CPI do Crime Organizado, no dia 18 de março, Timerman afirmou aos senadores que Tanure é o “poder oculto por trás do Banco Master e o verdadeiro beneficiário final do esquema”. Segundo o gestor, em 2019, o primeiro ato de Tanure após assumir a Gafisa teria sido desviar recursos para que Vorcaro ressarcisse vítimas de esquemas anteriores envolvendo fundos de pensão. Para Timerman, o banco funcionava como uma pirâmide financeira — e Vorcaro seria apenas um “pau-mandado” de Tanure.
A estrutura de intimidação descrita por Timerman é a mesma que a PF mapeou ao prender Vorcaro: uma organização dedicada a monitorar e silenciar adversários por meios ilegais. O inquérito chega ao Supremo em meio ao julgamento do caso Master, no qual a Segunda Turma do STF já havia formado placar de 2 a 0 para manter Vorcaro preso.
A assessoria de Tanure rebateu as declarações feitas na CPI, afirmando que o gestor “ostenta diversas condenações no Poder Judiciário” e não tem credibilidade. A nota reitera que o empresário manteve com o banco apenas “relações comerciais legítimas, como cliente e investidor”.
O caso ganha contornos ainda mais delicados ao considerar que a esposa de um ministro do STF tinha contrato milionário com o Master — voltado à elaboração e revisão de normas de compliance e controles internos, segundo ela. A defesa de Timerman confirmou que há investigação em andamento para apurar os atos que o gestor diz ter sofrido em decorrência de ter noticiado ilicitudes às autoridades competentes.
