O Banco Central divulgou nesta terça-feira (31) que as contas do setor público encerraram fevereiro com um déficit primário de R$ 16,4 bilhões — resultado que elevou a dívida pública a 79,2% do PIB, o equivalente a R$ 10,2 trilhões.
O patamar é o mais alto em mais de quatro anos: desde outubro de 2021, quando a dívida chegou a 79,5% do PIB. Apesar do saldo negativo mensal, o bimestre acumula superávit de R$ 87,3 bilhões (4,23% do PIB), mantendo o governo na rota da meta fiscal para 2026.
Resultado mensal e acumulado do bimestre
Em fevereiro do ano passado, o déficit primário havia sido de R$ 19 bilhões — o que representa uma leve melhora no comparativo anual. No acumulado de janeiro e fevereiro, o superávit de R$ 87,3 bilhões supera o registrado no mesmo período de 2025, quando somava R$ 85,1 bilhões (4,36% do PIB).
Só o governo federal fechou o bimestre no azul em R$ 57,8 bilhões, ante R$ 54,6 bilhões nos dois primeiros meses do ano passado. A meta para 2026 é encerrar o ano com saldo positivo de 0,25% do PIB, cerca de R$ 34,3 bilhões.
Juros nominais ampliam rombo a R$ 100,6 bilhões
Quando os encargos da dívida entram no cálculo — o chamado resultado nominal —, o déficit de fevereiro salta para R$ 100,6 bilhões. No acumulado de 12 meses até fevereiro, o rombo nominal chega a R$ 1,09 trilhão, ou 8,5% do PIB — número monitorado de perto pelas agências de classificação de risco.
As despesas com juros nominais somaram R$ 1,04 trilhão (8,1% do PIB) nos últimos 12 meses. O peso reflete, em parte, a taxa Selic fixada em 14,75% ao ano pelo BC no combate à inflação.
As estatais federais também pesam no resultado consolidado: no bimestre, acumularam déficit de R$ 4,16 bilhões — o pior resultado desde o início da série histórica em 2002.
Dívida cresce na era Lula e preocupa mercado
Nos pouco mais de três anos do governo Lula, a dívida pública avançou 7,5 pontos percentuais do PIB. O aumento está ligado principalmente à expansão dos gastos públicos e às despesas com juros. Um balanço dos três anos de gestão Haddad mostra que o endividamento público acumula alta de 7 pontos percentuais do PIB desde o início do governo.
Pelo conceito adotado pelo FMI — que inclui os títulos públicos na carteira do próprio BC —, a dívida brasileira chegou a 94% do PIB em fevereiro, patamar acima da média da Zona do Euro e bem superior ao de outros países emergentes e da América do Sul. Analistas do mercado financeiro projetam que o endividamento pode alcançar 97,6% do PIB em 2035 pelo critério nacional — e ultrapassar 100% pelo método do FMI.
Arcabouço fiscal sob pressão
Para conter a trajetória da dívida, o governo aprovou em 2023 o arcabouço fiscal, conjunto de regras que substituiu o teto de gastos. Especialistas em contas públicas, porém, alertam que sem cortes robustos de despesas o mecanismo será insustentável e deverá ser abandonado nos próximos anos.
O cenário já vinha tenso antes deste balanço: o governo havia anunciado bloqueio de apenas R$ 1,6 bilhão — até seis vezes menor que o esperado pelo mercado —, forçando a revisão do déficit projetado para quase R$ 60 bilhões. A consequência prevista pelos analistas é uma expansão ainda maior da dívida e elevação das taxas de juros cobradas ao setor produtivo.
