O barril do petróleo Brent voltou a encostar nos US$ 120 nesta sexta-feira (28) depois que Israel anunciou ampliação dos ataques ao Irã, bombardeando um centro de produção de mísseis e uma usina de urânio. O movimento desfez a expectativa de trégua que os EUA haviam sinalizado durante a semana.
No Brasil, o impacto chega direto ao bolso. Dados da ANP mostram que o diesel acumula alta de quase 24% desde o início do conflito — de R$ 6,03 para R$ 7,45 o litro. A gasolina sobe 8%, passando de R$ 6,28 para R$ 6,78, no mesmo período.
Importadores recuam e Petrobras não consegue suprir a demanda
O nó central da crise está na defasagem entre o preço interno do diesel e as cotações internacionais. Com o produto brasileiro mais barato que no exterior, importadores privados deixaram de comprar — o banco BTG Pactual estima queda de cerca de 60% na atividade desses operadores. Como 30% do diesel consumido no Brasil é importado, a retirada desses agentes aumenta a dependência da Petrobras e estreita a margem de manobra do mercado.
Para tentar cobrir a demanda, a estatal realizou leilões de parte de sua produção. Segundo análise do Banco do Brasil, os combustíveis chegaram a ser vendidos nesses leilões por valores bem acima do preço de referência — em algumas áreas do Norte e Nordeste, a diferença chegou a R$ 2,65 por litro.
No Rio Grande do Sul, levantamento do Sulpetro indica que 88% dos postos receberam combustíveis apenas de forma parcial. No Rio de Janeiro, o Sindcomb relatou instabilidade nas entregas, com postos de marca própria enfrentando bombas vazias. Em São Paulo, o presidente do Sincopetro aponta que a rede independente — 30% dos postos no estado — enfrenta dificuldades tanto no abastecimento quanto na manutenção financeira do negócio.
A Polícia Federal deflagrou operação contra preços abusivos depois que distribuidoras privadas já repassavam altas aos postos antes de qualquer reajuste da Petrobras — movimento que também abriu investigação no Cade.
Governo tenta conter inflação em ano eleitoral
O presidente Lula anunciou pacote de medidas com incentivos ao setor e zeragem dos impostos federais sobre o diesel. Também pediu que governadores zerassem o ICMS, mas a proposta foi rejeitada pelos estados. O pacote tem raízes em uma resposta emergencial montada às pressas quando o diesel disparou 11% em uma semana — e o impasse com os governadores sobre o ICMS já estava posto desde então.
Nesta sexta, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, afirmou que um número “relevante” de estados aceitou uma segunda proposta: auxílio de R$ 1,20 por litro de diesel importado até o fim de maio, com custos divididos igualmente entre União e estados. Ceron não divulgou quantos nem quais estados aderiram.
No campo monetário, o Copom reduziu a Selic para 14,75% ao ano na reunião de março, mas deixou de sinalizar novos cortes e citou o conflito quatro vezes no comunicado como fonte de incerteza. O economista-chefe do Banco do Brasil, Marcelo Rebelo, calcula que o choque do petróleo pode acrescentar cerca de 0,6 ponto percentual ao IPCA de 2026.
Rebelo pondera que o Brasil, por ser exportador de petróleo, tem alguma capacidade de absorver parte do choque. Mesmo assim, o impacto chega ao consumidor via combustíveis e transporte — itens com peso relevante no IPCA. A crise teve início quando o fechamento do Estreito de Ormuz empurrou o barril a quase US$ 120 e postos já reajustavam preços sem aguardar sinal da Petrobras.
