O preço da gasolina subiu, em média, R$ 0,40 por litro no Brasil desde o início da guerra no Irã. O diesel chegou a quase R$ 7,30 o litro — alta de 20% no período. O impacto vai além dos postos: o encarecimento do frete empurra preços em cascata e alimenta a inflação.
A escalada tem raiz no petróleo, cujo barril atingiu quase US$ 120 após bombardeios à infraestrutura do Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz. O governo federal respondeu com um pacote de R$ 30 bilhões em isenções e subsídios — mas os preços seguem em alta nas bombas.
Pacote federal não segurou os preços
Quando o diesel disparou mais de 11% em uma semana, o governo federal montou um pacote de R$ 30 bilhões com isenção de PIS/Cofins — mas os governadores se recusaram a abrir mão do ICMS, esvaziando parte da proposta e deixando o consumidor sem alívio nas bombas.
A medida previa ainda subvenção direta a produtores e importadores de combustíveis. Mesmo assim, gasolina e diesel continuaram subindo. A resistência dos estados ao corte tributário é apontada como um dos principais obstáculos à redução dos preços — governadores alegam que abrir mão do ICMS comprometeria o equilíbrio fiscal.
Quando o barril ultrapassou US$ 100 pela primeira vez desde 2022, especialistas já alertavam que a política de amortecimento da Petrobras tinha prazo para acabar. Com o petróleo beirando US$ 120 em razão dos bombardeios à infraestrutura petroleira do Oriente Médio e do fechamento do Estreito de Ormuz, a pressão sobre a estatal e toda a cadeia produtiva ficou insustentável.
Suspeita de oportunismo no setor
O caso chegou ao Cade: distribuidoras privadas já repassavam altas aos postos antes de qualquer reajuste da Petrobras, levantando suspeitas de oportunismo no setor — exatamente o que o governo agora tenta comprovar com a fiscalização intensificada sobre distribuidoras e postos de todo o país.
O economista Fábio Couto, repórter do Valor Econômico especializado no setor de energia há mais de 20 anos, avalia que há indícios reais de aproveitamento da crise para ampliar margens. Segundo ele, é possível que parte da alta nos postos vá além do repasse legítimo do choque externo.
Inflação em cascata e perspectivas
O diesel é o combustível do transporte de carga no Brasil. Sua alta não fica restrita às bombas: encarece o frete de alimentos, insumos e mercadorias, pressionando os preços ao consumidor em todos os setores da economia — um efeito multiplicador que os economistas chamam de inflação em cascata.
Com o conflito no Oriente Médio sem perspectiva de resolução imediata e o barril de petróleo em patamares historicamente elevados, analistas avaliam que a pressão sobre os combustíveis deve permanecer no curto prazo. O risco inflacionário derivado do preço do diesel é apontado como variável relevante para as próximas decisões do Banco Central.
A negociação entre o governo federal e os estados segue sem acordo. Enquanto Brasília pressiona por cortes coordenados no ICMS, os governadores resistem — e o custo político e econômico de uma crise geopolítica que ninguém interno gerou continua sendo repassado, litro a litro, ao consumidor brasileiro.
