O julgamento que pode cassar o mandato de Cláudio Castro (PL) acendeu uma crise interna no partido: aliados do governador do Rio passaram a desconfiar que Flávio Bolsonaro teria abandonado Castro — e o acordo para as eleições de 2026 pode não sobreviver ao tribunal.
O sinal de alerta foi o voto do ministro Antônio Carlos, considerado próximo de Kassio Nunes Marques, que mantém relação política com Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência. Contrariando o que o governador esperava, Antônio Carlos votou pela cassação.
A origem do processo e o placar adverso
O caso no TSE apura suposto abuso de poder político e econômico: segundo o Ministério Público Eleitoral, funcionários temporários contratados para o Ceperj e para a Uerj teriam sido usados como cabos eleitorais nas eleições de 2022. Com o retorno de Antônio Carlos ao julgamento e seu voto pela cassação, o placar chegou a 2 a 0 contrário a Castro — com seis ministros ainda a votar.
Outra frustração do governador veio com o prazo do pedido de vista de Kassio. Castro esperava 30 dias; a presidente da Corte, ministra Cármen Lúcia, fixou apenas 15 — e Kassio aceitou sem resistência. O episódio aprofundou a desconfiança sobre o ministro, até então visto como aliado estratégico no tribunal.
Nos bastidores, ganhou força a hipótese de que, caso seja cassado, Castro seria substituído pelo secretário da Polícia Civil, Felipe Curi — que acumula avaliação positiva após a mega operação no Complexo do Alemão. A circulação do nome de Curi como sucessor reforçou o sentimento de abandono no campo do governador.
Manobras para ganhar tempo e espaço político
Diante do placar adverso, aliados de Castro no PL passaram a articular para que o ministro André Mendonça também peça vista — com prazo de até 60 dias. A estratégia seria empurrar a votação até junho, quando Kassio Nunes Marques assume a presidência do TSE. O julgamento foi suspenso pelo pedido de vista de Kassio — segunda interrupção desde novembro —, com a votação remarcada para 24 e 25 de março, prazo que os aliados do governador agora tentam ampliar ainda mais.
O plano, porém, é apertado: caso Mendonça utilize os 60 dias a partir de 25 de março, o processo ainda seria devolvido na última semana da gestão de Cármen Lúcia à frente do TSE.
Com o futuro político em xeque, duas hipóteses opostas circulam na cúpula do PL fluminense. Na primeira, Castro anteciparia sua saída do governo — com possível indicação ao Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) —, o que lhe garantiria uma posição caso seja declarado inelegível e abriria espaço na chapa majoritária para outro nome ao Senado.
Na segunda hipótese, o governador permanece no cargo. Nesse caso, o secretário das Cidades, Douglas Ruas, não assumiria um mandato-tampão antes da eleição — etapa considerada estratégica para sua visibilidade como candidato ao governo pelo PL. Interlocutores de Castro temem que Ruas priorize a própria campanha e deixe em segundo plano a defesa da atual gestão, comprometendo o projeto do governador ao Senado.