A Cargill suspendeu as exportações de soja do Brasil para a China e interrompeu a compra do grão no mercado doméstico após o Ministério da Agricultura adotar um novo sistema de inspeção fitossanitária considerado incomum pelo setor exportador.
O impasse foi revelado na quarta-feira (11) por Paulo Sousa, presidente da empresa no Brasil e do Negócio Agrícola na América Latina, em entrevista à Reuters. A companhia havia paralisado as operações desde a sexta-feira anterior.
Por que os embarques estão travados
O Ministério da Agricultura passou a realizar amostragem própria da soja destinada à China, abandonando o padrão consolidado pelo mercado de grãos. A mudança ocorreu após solicitação do governo chinês, mas tem produzido discrepâncias nos laudos e impedido a emissão dos certificados fitossanitários obrigatórios.
“Isso está gerando discrepância… com essas discrepâncias, os certificados fitossanitários que acompanham a carga, que são emitidos pelo ministério, em alguns casos não estão sendo emitidos”, afirmou Paulo Sousa. Sem o documento, os navios ficam impedidos de descarregar nos portos chineses.
A consequência imediata já está em curso: embarcações que tinham a China como destino estão sendo redirecionadas para outros mercados. O executivo alertou que, se o impasse não for resolvido rapidamente, haverá paralisação total dos embarques para o país asiático.
O Brasil está no auge da colheita e consolida sua posição como principal exportador global de soja — o que torna a crise ainda mais crítica neste período de pico da safra. Entenda como o Arco Norte transformou a rota da soja e reduziu custos de frete em até 15%.
Negociações em curso, mas sem acordo até agora
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, está avaliando a situação com a Anec (associação de exportadores de grãos) e a Abiove (processadores de soja), em busca de consenso sobre a metodologia correta de amostragem e classificação do grão. O ministério não respondeu a pedido de comentário até a publicação desta reportagem.
A Anec divulgou nota expressando preocupação com a capacidade dos exportadores de se adaptar ao novo sistema, especialmente no momento de maior volume de embarques. “A principal preocupação do setor segue sendo a soja e como a cadeia conseguirá se adequar às novas exigências no médio prazo”, declarou a entidade.
No mercado interno, o impacto foi imediato: corretores de grãos e agricultores brasileiros relataram nas redes sociais que praticamente não houve lances de compradores para soja local na quarta-feira — sinal de que o travamento logístico se propaga por toda a cadeia produtiva.