O Itamaraty revogou o visto de Darren Beattie, assessor sênior do governo Trump para políticas sobre o Brasil, após Lula condicionar publicamente sua entrada no país à liberação de vistos para o ministro Alexandre Padilha.
A declaração de Lula foi feita nesta sexta-feira (13) na inauguração do Hospital do Andaraí, no Rio de Janeiro. O Itamaraty confirmou a revogação ainda à tarde, invocando o princípio de reciprocidade — o mesmo adotado pelos Estados Unidos em situações análogas.
Em agosto do ano passado, Washington cancelou os vistos da mulher e da filha de dez anos de Padilha. O visto do próprio ministro não foi cancelado porque já estava vencido.
Reciprocidade como resposta diplomática
“Não, você sabe que bloquearam o visto do Padilha, o visto da mulher dele e o visto da filha dele de 10 anos? Então, Padilha, esteja certo que você está sendo protegido”, declarou Lula durante o evento no Andaraí.
O Brasil utilizou como justificativa formal o princípio de reciprocidade, invocado pelo próprio governo americano em casos análogos. A revogação encerra, ao menos por ora, qualquer possibilidade de Beattie retornar ao país com documentação regular.
No mês seguinte ao cancelamento dos vistos da família, Padilha afirmou ter recebido um novo visto americano para participar da Assembleia Geral da ONU, em Nova York — o que havia parcialmente normalizado a situação antes da escalada desta semana.
Quatro dias antes, o Itamaraty havia convocado o encarregado de negócios americano Gabriel Escobar para explicar a presença de Beattie no Brasil — gesto que antecipou a escalada diplomática culminada na revogação do visto.
Moraes nega visita e tensão com Washington se aprofunda
Na quinta-feira (12), o ministro Alexandre de Moraes voltou atrás e negou a visita de Beattie a Bolsonaro na prisão, após solicitação da defesa do ex-presidente. O Itamaraty alertou que o encontro poderia “configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”.
O órgão informou ainda que não havia compromisso diplomático confirmado com Beattie no país. Fontes da diplomacia, ouvidas pela GloboNews, afirmam que ele teria mentido ao requerer o visto — motivação adicional para a revogação formal.
Crítico declarado do governo Lula e da atuação de Moraes, Beattie atua em Washington na formulação das políticas americanas para o Brasil. O episódio integra uma ofensiva mais ampla da ala ideológica do Maga, que usa o caso Bolsonaro para pressionar Brasília em frentes onde o próprio Itamaraty admite não ter resposta fácil.
Bolsonaro cumpre pena de 27 anos desde janeiro, condenado por participação na tentativa de golpe de 2022. Detido no Papudinha, o 19º Batalhão da PM do DF, qualquer visita ao ex-presidente depende de autorização de Moraes. A demora em definir uma data para o encontro entre Lula e Trump criou o vácuo diplomático que deu à ala Maga espaço para avançar — e o episódio Beattie é um dos efeitos diretos dessa ausência de canal direto entre os dois presidentes.