Pesquisadores da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) estimam que o álcool é responsável por 4% de todos os casos de câncer no mundo — e não existe dose segura de consumo.
A substância é classificada como carcinógeno do Grupo 1 há mais de três décadas, a categoria de maior risco, com evidências suficientes de que o álcool causa câncer em humanos.
No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) defende políticas de controle mais rigorosas, incluindo tributação específica sobre bebidas alcoólicas.
Como o álcool provoca câncer
Ao ser metabolizado pelo organismo, o etanol das bebidas alcoólicas se transforma em acetaldeído, composto com alto potencial carcinogênico que danifica o DNA das células. A explicação é das nutricionistas do INCA, Maria Eduarda Leão e Gabriela Vianna.
O álcool também facilita a entrada de outras substâncias carcinogênicas no organismo e aumenta o estresse oxidativo celular, favorecendo processos inflamatórios crônicos. Combinado ao tabaco, o risco se multiplica — especialmente para cânceres de boca, faringe e laringe.
“O álcool também pode alterar a absorção de nutrientes importantes para o funcionamento do sistema imunológico”, afirmou Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).
Sem dose segura: o risco começa no primeiro drinque
Não há nível de consumo que seja totalmente seguro em relação ao risco de câncer. Uma estimativa da revisão científica aponta que mais de 100 mil casos registrados em 2020 foram associados ao consumo leve a moderado — equivalente a cerca de uma ou duas doses por dia.
Todos os tipos de bebida — cerveja, vinho e destilados — apresentam impacto semelhante. Os cânceres com associação mais documentada incluem tumores de boca, faringe, laringe, esôfago, fígado, intestino e mama. O câncer colorretal, diretamente associado ao álcool, deve matar 635 mil brasileiros até 2030, segundo projeção publicada no The Lancet por pesquisadores do INCA e da IARC.”
Tributação e conscientização no centro do debate
O INCA participa das discussões da reforma tributária brasileira defendendo o imposto seletivo sobre bebidas alcoólicas. A base é científica: evidências indicam que o preço influencia diretamente o padrão de consumo.
“No Brasil, estudos indicam que duas pessoas morrem por hora por causas atribuíveis ao consumo de álcool. Para o câncer, sabemos que não há níveis seguros de ingestão. Portanto, não há coerência em promover incentivos à produção e comercialização desses produtos”, afirmam especialistas do INCA.
O impacto é desproporcionalmente alto entre as mulheres. Dados do CISA apontam que mortes por álcool entre brasileiras cresceram 20% em dez anos e internações subiram 41% — números que dimensionam a escala do problema de saúde pública que especialistas associam diretamente ao risco de câncer.
Os autores do estudo da IARC concluem que, apesar da classificação como carcinógeno do Grupo 1 existir há mais de 30 anos, a conscientização pública sobre a relação entre álcool e câncer ainda é baixa — o que reforça a necessidade de ampliar políticas de controle e estratégias de prevenção globalmente.