A Polícia Federal prendeu um delegado, um comissário e um oficial de cartório acusados de extorquir R$ 1,5 milhão de um líder do Comando Vermelho no Rio de Janeiro em troca do encerramento de uma investigação criminal.
O esquema foi desvendado na 2ª fase da Operação Anomalia, deflagrada na terça-feira (10). Os três agentes exigiram o pagamento do traficante Gabriel Dias de Oliveira, o “Índio do Lixão”, para arquivar procedimento que tramitava na 44ª Delegacia Policial, em Inhaúma.
A ação integra a Missão Redentor II, força-tarefa criada por determinação do STF no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas.
Como funcionava o esquema
O delegado Marcus Henrique de Oliveira Alves, titular da 44ª DP, o comissário Franklin José de Oliveira Alves e o oficial de cartório Leandro Moutinho de Deus são os alvos da 2ª fase da operação. Para pressionar o traficante ao pagamento, Franklin e Marcus Henrique assinaram e emitiram intimações policiais destinadas à esposa, ao irmão e a um amigo do “Índio do Lixão” — utilizando a estrutura da própria delegacia como instrumento de coação.
A Polícia Federal identificou três núcleos distintos de atuação criminosa. O primeiro, formado por policiais civis e intermediários, responde por extorsão majorada e obstrução de investigação. O segundo articula influência política e institucional para beneficiar o traficante neerlandês Gerel Lusiano Palm em processos de refúgio e extradição. O terceiro envolve policiais militares que prestavam segurança particular, escolta e suporte logístico ao “Índio” — incluindo, segundo as apurações, venda ilegal de armas.
Primeira fase prendeu delegado da PF e ex-secretário
Na véspera, segunda-feira (9), a 1ª fase da Operação Anomalia resultou na prisão do delegado Fabrizio Romano, da própria Polícia Federal, e de Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário estadual de Esportes do Rio de Janeiro. O grupo seria articulado por Carracena e por advogados que atuavam como intermediários em negociações para viabilizar favores e repasses financeiros ao delegado em troca de informações privilegiadas e influência institucional. As investigações também apontam a participação de um homem com histórico criminal que atuava na facilitação política do grupo em Brasília.
Operação nasceu de decisão do STF sobre favelas
A Missão Redentor II foi criada em cumprimento à decisão do Supremo Tribunal Federal no âmbito da ADPF 635 — a ADPF das Favelas. A iniciativa tem como objetivo fortalecer a produção de inteligência e a repressão aos principais grupos criminosos violentos do Rio de Janeiro, com foco na identificação de conexões entre organizações criminosas e agentes públicos.
Os investigados poderão responder, conforme o grau de participação, pelos crimes de associação criminosa, corrupção ativa, corrupção passiva, tráfico de influência e lavagem de dinheiro. Para os policiais civis e militares, estão incluídas também as tipificações de extorsão majorada e obstrução de investigação.
O caso reacende o debate sobre a infiltração de agentes das forças de segurança nas redes do crime organizado no estado — seja prestando serviços de proteção, seja negociando impunidade diretamente com lideranças do tráfico.