Mojtaba Khamenei, 56 anos, foi confirmado como novo líder supremo do Irã na madrugada de domingo (8), oito dias após a morte de seu pai, Ali Khamenei, em ataques aéreos de Israel e Estados Unidos.
A escolha coube à Assembleia de Peritos — grupo de 88 clérigos xiitas —, que deliberou a portas fechadas em plena guerra entre o Irã, Washington e Tel Aviv, iniciada em 28 de fevereiro.
A TV estatal iraniana interrompeu sua programação para o anúncio emotivo e já passou a chamá-lo de aiatolá Mojtaba Khamenei — título que ele não possuía de forma reconhecida nos círculos religiosos.
Desconhecido do público, influente nos bastidores
Mojtaba Khamenei nunca ocupou cargo público nem foi eleito para qualquer posição dentro do Estado iraniano. Formado em teologia nos seminários de Qom — principal centro do islamismo xiita —, chegou a lecionar religião por alguns anos, trajetória comum entre clérigos que buscam o título de aiatolá. As aulas foram interrompidas no ano passado sem explicações públicas, possivelmente para que ele não parecesse se preparar para a sucessão.
Por trás das cortinas, analistas avaliam que Mojtaba exercia influência considerável sobre a política iraniana por meio do escritório do líder — a mais poderosa instituição do país. Há indícios de que seu apoio foi decisivo na eleição presidencial de 2005, que levou Mahmoud Ahmadinejad ao poder, mobilizando redes religiosas conservadoras e ligadas às forças de segurança.
A reeleição contestada de Ahmadinejad em 2009 gerou protestos em massa, reprimidos com violência. O ex-premier Mir-Hossein Mousavi, líder da oposição à época, permanece em prisão domiciliar há mais de 16 anos.
Lealdade declarada, legitimidade em dúvida
Nas horas seguintes ao anúncio, instituições políticas e militares correram para declarar obediência ao novo líder. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) foi além: referiu-se a Mojtaba como o novo vice do Imã Oculto — expressão de forte peso no discurso político xiita.
Ainda assim, sua legitimidade religiosa permanece contestável. Ao contrário de clérigos experientes, ele não era amplamente reconhecido como aiatolá nos círculos religiosos — lacuna que a TV estatal tratou de preencher ao adotar o título imediatamente após o anúncio. Seu pai enfrentou questionamento similar em 1989, mas havia servido quase uma década como presidente e contava com aliados poderosos em todo o sistema.
Uma sucessão moldada por perdas e pressão de guerra
Por dias, o próprio Mojtaba foi dado como morto nos bombardeios que mataram seu pai — sua sobrevivência confirmada foi o que abriu caminho para a sucessão que agora define o futuro do Irã. Junto com Ali Khamenei, os ataques eliminaram a mãe e a esposa de Mojtaba, além de comandantes sênior, chefes de inteligência e operadores políticos do círculo próximo do ex-líder.
O novo chefe da República Islâmica precisará consolidar autoridade sobre uma estrutura que dependia profundamente de seu pai. A semana que se seguiu à morte de Ali Khamenei evidenciou essa fragilidade: sem um líder no cargo, as decisões paralisaram e a incerteza se alastrou pelo sistema político.
Paralelamente, Mojtaba terá de conduzir uma guerra contra dois dos exércitos mais poderosos do planeta — que já sinalizaram a possibilidade de atacá-lo diretamente. No front interno, parte da população que foi às ruas nos recentes protestos esperava que a morte de Ali Khamenei abrisse um novo caminho político. O que encontra agora é um novo Khamenei — mais jovem, talvez mais enérgico, mas profundamente ligado às mesmas instituições de segurança que sustentaram o regime do pai.
Alertas já foram emitidos a potenciais manifestantes, sinalizando que o aparato de segurança pretende reagir com firmeza a qualquer questionamento. A República Islâmica projeta estabilidade. Se Mojtaba Khamenei será capaz de transformar essa projeção em autoridade real é a questão que pode definir não apenas esta guerra, mas o futuro do próprio Estado iraniano.