O Brasil encerrou 2025 com 1.470 feminicídios — o maior número registrado desde que o crime foi tipificado, em 2015. A média chega a quatro mulheres assassinadas por dia.
A ministra do STF Cármen Lúcia usou a abertura da sessão do TSE, na terça-feira (10), para classificar os dados como “estarrecedores” e afirmar que as mulheres brasileiras vivem sob um “poder violento” incompatível com qualquer noção de civilidade.
O total de 2025 supera os 1.464 casos registrados em 2024 — que era, até então, o pior resultado desde a criação da lei. Nos dez anos de vigência da tipificação, o crescimento foi de 316%: em 2015, foram 535 mortes; no ano passado, chegou-se a quase três vezes esse total.
“Temos experimentado situações de muita crueldade, perversidade e exclusão. Quando se bate, se mata uma mulher, cada uma de nós é açoitada, violentada, principalmente ferida nos nossos direitos”, afirmou Cármen Lúcia. O discurso foi feito em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, celebrado no último domingo.
A ministra também destacou que a violência não afeta todas as mulheres da mesma forma — algumas sequer têm acesso mínimo a direitos. Pesquisa sobre a distribuição geográfica dos feminicídios confirma a desigualdade: mais de 70% das cidades com menos de 100 mil habitantes não contam com nenhum serviço especializado de proteção à mulher.
No mesmo discurso, Cármen Lúcia abordou a socialização diferenciada de meninos e meninas. Segundo ela, enquanto meninas não aprendem a lutar na infância, meninos recebem brinquedos ligados à guerra e à violência — como espadas —, o que, para a ministra, alimenta estruturas que perpetuam a cultura do agressor.
Os números ganham dimensão ainda mais grave quando se observa que 148 mulheres foram assassinadas em 2024 mesmo com medida protetiva de urgência ativa — instrumento jurídico criado exatamente para garantir proteção imediata a vítimas em situação de risco iminente.
A fala no TSE veio dois dias depois de manifestantes tomarem as ruas de capitais brasileiras no Dia Internacional da Mulher exigindo políticas concretas de combate ao feminicídio. A coincidência de datas deu ao pronunciamento peso político que extrapolou o protocolar.
“É impossível imaginar que isto seja uma situação de civilidade”, disse a ministra, sintetizando a denúncia. Os dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública que embasaram a fala confirmam o diagnóstico: dez anos após a criação da tipificação, o Brasil ainda não encontrou resposta suficiente para um crime que, desde então, não parou de crescer.