A Assembleia de Peritos do Irã nomeou Mojtaba Khamenei, de 56 anos, como novo líder supremo no domingo (8), dez dias após a morte de seu pai, o aiatolá Ali Khamenei, no início da guerra com os EUA e Israel.
A escolha dividiu o país: multidões pró-governo celebraram nas ruas de Teerã, Qom e Mashhad, enquanto iranianos ouvidos pela BBC manifestaram temor de que o novo líder seja ainda mais opressor que o pai.
Mojtaba Khamenei manteve perfil reservado durante o governo paterno, mas era considerado uma figura poderosa nos bastidores. Telegramas diplomáticos americanos vazados pelo WikiLeaks nos anos 2000 o descreveram como “o poder por trás dos mantos” no regime iraniano.
Além da relação próxima com o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), ele foi acusado de interferir em eleições presidenciais e de comandar a força paramilitar Basij — milícia de cerca de 450 mil membros, conhecida pela lealdade ao regime e pela brutalidade.
A nomeação de Mojtaba só foi possível porque ele sobreviveu aos bombardeios que mataram seu pai — os mesmos ataques que destruíram o complexo do líder supremo e obrigaram a Assembleia de Peritos a agir às pressas, em plena guerra.
A TV estatal iraniana IRINN transmitiu desde domingo manifestações de apoio em Teerã, na cidade sagrada de Qom e em Mashhad, local de nascimento do novo líder. Apoiadores exibiam fotografias dos dois líderes e acenavam com bandeiras da República Islâmica. Mojtaba, no entanto, ainda não apareceu em público nem fez nenhum discurso.
Nas redes sociais, a BBC News Persa confirmou vídeos com reações opostas: cânticos de “morte a Mojtaba” ao lado de manifestações com “Allahu Akbar” em sinal de apoio. A divisão reflete a tensão acumulada nos anos finais do regime do pai, agora acirrada pelo conflito armado.
A reação internacional foi imediata. O presidente dos EUA, Donald Trump, declarou que Mojtaba Khamenei seria “inaceitável” e que, sem aprovação americana, o novo líder “não iria durar muito” — afirmação feita poucas horas antes do anúncio oficial da Assembleia de Peritos.
Israel acusou Mojtaba de ter as mãos manchadas de sangue: o Ministério das Relações Exteriores publicou uma foto dele armado ao lado do pai e alertou que “continuaria a buscar qualquer sucessor”, enquanto Trump recuava publicamente da ideia de enviar tropas ao Irã.
Entre os iranianos ouvidos pela reportagem, o ceticismo predomina fora dos círculos pró-regime. Um morador de Teerã na casa dos 30 anos o descreveu como “vingativo” e alertou que “eles mataram seu pai, e ele não irá perdoar”. Outro, de Karaj, resumiu: “É o mesmo caminho, talvez até pior. Não acho que ele irá durar.”
A Assembleia de Peritos, composta por 88 clérigos, tem poder constitucional para escolher e supervisionar o líder supremo. A velocidade da nomeação — em meio a um conflito armado ativo — sinaliza que o regime optou pela continuidade como resposta à pressão externa e interna.