O escritório de advocacia que leva o nome do governador Ibaneis Rocha (MDB) negociou R$ 38,12 milhões em créditos com um fundo da Reag Investimentos — gestora investigada por estruturar fundos do Banco Master em operações suspeitas de fraude e lavagem de dinheiro.
O contrato foi assinado em 29 de maio de 2024. Os dois escritórios cederam ao fundo “Reag Legal Claims” honorários advocatícios a receber de uma ação do Sindicato dos Servidores do Legislativo Federal (Sindilegis), antecipando o pagamento com deságio cujo valor não foi divulgado.
A oposição ao governador do Distrito Federal levou os indícios ao Supremo Tribunal Federal e pediu que a “relação econômica privada” entre Ibaneis e a Reag seja formalmente investigada.
O contrato e a conexão com o escândalo
Em 29 de maio de 2024 — mais de um ano antes da Operação Compliance Zero —, o “Ibaneis Advocacia e Consultoria” e uma firma parceira firmaram contrato com o fundo “Reag Legal Claims”, hoje renomeado Pedra Azul FIDC. A operação consistiu na cessão de créditos referentes a honorários a receber de uma ação do Sindilegis. Em troca, os escritórios receberam o valor antecipado, com desconto não revelado nos documentos acessados pela imprensa.
O elo entre o escritório do governador e o escândalo do Master passa por um nome: Marcos Ferreira Costa. Ele consta nos registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como diretor do Pedra Azul FIDC — o mesmo fundo que comprou os créditos. Um ano depois, em 12 de março de 2025, o mesmo executivo representou a Reag na assembleia de acionistas do Banco de Brasília (BRB) que aprovou o aumento de capital do banco distrital — justamente quando a tentativa de aquisição do Master pelo BRB virou caso público. Naquela data, a Reag já detinha mais de 10% do BRB via fundo Borneo FIP Multiestratégia.
A Operação Compliance Zero — que enviou Daniel Vorcaro à prisão pela terceira vez — é a mesma investigação que colocou a Reag sob suspeita de estruturar fundos para inflar resultados e ocultar riscos do Master. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora — novo nome da Reag Trust DTVM — em janeiro de 2025, após a segunda fase da operação. A Reag é acusada de ter estruturado e administrado fundos suspeitos de movimentar recursos de forma atípica, com indícios de fraude e lavagem de dinheiro.
BRB em crise e defesa do governador
O BRB herdou do escândalo uma fragilidade patrimonial que o Banco Central avalia em ao menos R$ 5 bilhões — e as agências Fitch e Moody’s já rebaixaram o banco para o patamar “CCC”, o mais alto risco antes do calote. Ao longo de 2024 e 2025, o banco distrital injetou R$ 16,7 bilhões no Master, dos quais pelo menos R$ 12,2 bilhões estão sob suspeita de irregularidades. O BRB enfrenta hoje quatro riscos simultâneos enquanto tenta reaver os recursos congelados nas mãos do liquidante. Para recompor o caixa, o conselho do BRB propôs aos acionistas um aumento de capital de até R$ 8,86 bilhões via emissão de novas ações, proposta que vai a voto em assembleia no dia 18 de março.
A Reag Investimentos, fundada em 2013 por João Carlos Mansur, chegou a administrar R$ 299 bilhões e foi a primeira gestora de patrimônio com ações negociadas na bolsa brasileira. Além das investigações do caso Master, a empresa figura na megaoperação Carbono Oculto, deflagrada contra o PCC, acusada de gerir fundos de investimento usados pela facção para lavagem de dinheiro.
A defesa de Ibaneis Rocha afirma que o governador está afastado do escritório desde 2018, quando assumiu o cargo público, e nega qualquer participação nas negociações com a Reag. “Todas as informações que detém sobre o grupo foram adquiridas a partir de matérias de jornais, já no presente ano”, diz a nota assinada por seis advogados, entre eles Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.