O governo brasileiro acionou a diplomacia para segurar o processo em curso nos Estados Unidos que pode classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, ligou para o secretário de Estado americano, Marco Rubio, pedindo que o encaminhamento ao Congresso dos EUA seja suspenso — pelo menos até o encontro presencial entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em Washington.
O pedido e o prazo urgente
A urgência é técnica: uma vez que Rubio formalize o encaminhamento ao Parlamento americano, o Congresso tem apenas sete dias para analisar a medida. Sem bloqueio, a designação é publicada no registro oficial e passa a valer imediatamente.
Para receber o selo de organização terrorista estrangeira nos EUA, um grupo precisa cumprir três condições definidas pelo Departamento de Estado. A decisão final cabe ao secretário de Estado, em consulta com o Departamento de Justiça e o Tesouro.
Enquanto Vieira atua pelo canal diplomático, a embaixada brasileira em Washington trabalha nos bastidores. Caso Rubio não atenda ao pedido, diplomatas serão escalados para pressionar diretamente parlamentares americanos.
O que o Brasil levará ao encontro
O governo quer usar a reunião com Trump para demonstrar sua capacidade de combate ao crime organizado. O Ministério da Justiça prepara documentação detalhada, e o ministro Wellington César Lima deverá integrar a comitiva presidencial.
O principal exemplo a ser apresentado é a Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado pela Receita Federal e pelo Gaeco, do Ministério Público de SP. A ação desmantelou uma rede do PCC envolvida em lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, movimentando bilhões por meio de importação de metanol adulterado e uso de fintechs — considerada a maior operação do tipo no Brasil.
A tese central do governo é que o combate mais eficaz ao crime organizado passa pelo sufocamento financeiro das facções, e não pela designação internacional como grupos terroristas.
A movimentação diplomática de Brasília acontece em momento delicado nas relações com Washington. A pressão ganha contorno quando se recorda que Trump lançou o Escudo das Américas — coalizão anticartel com aliados conservadores do continente — sem convidar Lula, deixando o Brasil de fora da principal iniciativa anticartel hemisférica.
O temor brasileiro também é doutrinário. O assessor Stephen Miller afirmou recentemente que cartéis “só podem ser derrotados com poder militar” — postura que, combinada à eventual classificação do PCC e do CV como terroristas, abriria caminho legal para ações diretas dos EUA em território brasileiro.
Consequências da designação
A classificação como organização terrorista estrangeira nos EUA traz efeitos imediatos: proibição de transações financeiras com membros do grupo, congelamento de ativos em solo americano e restrições de visto para pessoas associadas às facções.
Lula pretende visitar a Casa Branca, mas a data segue indefinida. O encontro, inicialmente previsto para março, foi adiado por conflito de agendas — e é justamente essa janela em aberto que mantém a diplomacia brasileira em alerta máximo.