Provar competência antes mesmo de mostrar o crachá. Essa foi a experiência de Carolina Nucci, jornalista de automobilismo que, na entrada de uma coletiva em Interlagos, precisou acionar o chefe para confirmar que estava ali a trabalho — porque o fiscal preferiu questionar sua presença.
Décadas depois, o padrão persiste. Pesquisa da McKinsey & Company com 15 mil trabalhadores em diferentes países mostra que quase metade das mulheres com menos de 30 anos já teve oportunidades prejudicadas pela idade — contra 15% dos homens na mesma faixa etária.
O que os números revelam
O relatório Women in the Workplace, produzido pela McKinsey & Company em parceria com a Lean In, traçou um panorama das desigualdades no ambiente corporativo. Além do impacto da idade nas oportunidades, 36% das mulheres jovens disseram que a faixa etária influenciou a perda de aumentos, promoções ou chances de progressão.
O reflexo chega ao topo: mulheres ocupam apenas 29% dos cargos de alta administração em média. O fenômeno tem nome no estudo — o “degrau quebrado”. Quando mulheres não conquistam a primeira promoção para cargos de liderança na mesma proporção que homens, a desigualdade se multiplica nos níveis hierárquicos superiores.
Pesquisa da Todas Group e da Nexus com 1.534 lideranças femininas reforça o quadro: 56% dizem que a atitude mais importante que homens poderiam tomar é interromper falas machistas de colegas. Mas apenas 35% delas já foram defendidas por um homem em situações de preconceito de gênero no trabalho.
Trajetórias marcadas por questionamentos
Mariam Topeshashvili, 29 anos, chegou a gerente de uma agência internacional após formação em Harvard. Nascida na Geórgia e criada em favela no Rio de Janeiro, relatou a sensação constante de avaliação permanente. “Eu me sentia um patinho fora d’água. Muitas vezes tinha a sensação de que não era ouvida”, conta.
Para Dhafyni Mendes, cofundadora do Todas Group, interrupções constantes e a desvalorização de ideias corroem a segurança psicológica. Mariam descreve o efeito prático: “Você começa a se questionar. Chegava em casa pensando: será que mereço o cargo que tenho? Será que faz sentido estar ali?”
Carolina, hoje CMO e cofundadora da Conectas — empresa de educação corporativa —, migrou do jornalismo para a engenharia química, onde ouviu que “não era lugar de menina”, e depois para o marketing. Em cada transição, encontrou novos episódios: descobriu que sócios ganhavam mais e ouviu que eles “precisavam mais, porque eram pais de família”.
O dado não é isolado. Pesquisa da Ipsos com 23 mil pessoas em 29 países revelou que 31% dos homens da Geração Z acreditam que a esposa deve obedecer ao marido — número que ajuda a entender por que desconfiança e subestimação ainda permeiam o ambiente corporativo em 2026.
O estudo da McKinsey aponta que mulheres que enfrentam microagressões frequentes têm maior probabilidade de se sentir esgotadas e de considerar deixar o emprego — contribuindo para o aumento da demissão voluntária feminina e do burnout profissional. Ambientes percebidos como injustos ampliam ainda mais esse movimento.
A penalidade pela maternidade agrava o quadro. Mais de 380 mil mulheres foram demitidas em até dois anos após o fim da licença-maternidade entre 2020 e 2025 no Brasil, segundo levantamento da Secretaria de Inspeção do Trabalho. Carolina também notou diferença no tratamento ao mencionar maternidade em diferentes etapas da carreira.
Outro dado da pesquisa da Todas Group e Nexus indica que 51% das mulheres acreditam que homens já consideram haver igualdade no ambiente corporativo, enquanto 45% afirmam que eles enxergam o debate de gênero como exagero — o que dificulta o avanço de políticas internas de equidade.
O que as especialistas recomendam
Diante do cenário, as entrevistadas convergem em algumas direções. Para Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, demonstrar preparo e confiança influencia diretamente a forma como a profissional é percebida. “Leia sobre o mercado em que atua, amplie sua visão”, orienta.
Carolina reforça a importância de denunciar e de construir redes de apoio. “Quando olho para trás, penso: por que não denunciei? Precisamos mostrar que isso é errado. Mulheres não competem, se ajudam.” Para Mariam, chegar a uma posição de liderança carrega responsabilidade coletiva: “Às vezes você é uma das poucas que conseguiu chegar ali — e isso pode abrir caminho para outras.”