A captura de Nicolás Maduro em janeiro e a transferência rápida de poder na Venezuela criaram um modelo que Donald Trump quer replicar no Irã. Mas o que funcionou com aparente facilidade no coração da América do Sul esbarra em obstáculos radicalmente diferentes no Oriente Médio.
EUA e Israel eliminaram o aiatolá Ali Khamenei em uma ofensiva aérea que abriu uma guerra regional de proporções ainda imprevisíveis. Trump sugeriu que o resultado poderia lembrar o venezuelano — um novo líder disposto a cooperar com Washington. Os analistas discordam.
Na Venezuela, a operação foi cirúrgica e veloz: em 3 de janeiro, forças especiais americanas bombardearam alvos militares em Caracas, capturaram Maduro e o transferiram para Nova York para responder por narcotráfico e terrorismo. Em dias, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu o governo interino e as instituições seguiram operando.
No Irã, a escala foi completamente diferente. EUA e Israel atacaram milhares de alvos — de instalações de mísseis a centros de comando — e eliminaram Khamenei junto com outros dirigentes de alto escalão. A operação desencadeou uma guerra regional que ameaça a economia e a segurança em escala global.
Estrutura feita para sobreviver ao ataque
A arquitetura política iraniana foi projetada para resistir ao tipo de intervenção que derrubou Maduro. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o poder é distribuído entre instituições religiosas, órgãos eleitos e a Guarda Revolucionária Islâmica, com mecanismos de sucessão embutidos — como a Assembleia de Peritos, órgão clerical de 88 membros que escolhe o novo líder supremo. A morte de Khamenei não implica colapso automático.
O Irã tem gasto militar três a quatro vezes maior do que a Venezuela, o maior arsenal de mísseis balísticos do Oriente Médio e uma indústria que, apesar de décadas de sanções, produz drones e sistemas avançados em escala industrial. Enquanto na Venezuela os americanos “eliminaram a principal figura e chegaram a um acordo com o restante do regime”, no Irã “o restante continua no poder e contra-ataca de forma feroz”, avalia Nahal Toosi, do Center for International Policy.
Encontrar uma figura como Delcy Rodríguez entre os iranianos seria improvável. “Se Washington quiser um dirigente de confiança no Irã, terá muito mais dificuldade do que na Venezuela, que está no quintal dos EUA”, diz Toosi. “Mesmo que encontrassem uma figura mais moderada, como chegaria lá? Conseguiria apoio da Guarda Revolucionária, do clero e da base do regime? Não vejo isso como viável.”
Peso geopolítico e a variável Israel
Além da complexidade interna, o Irã tem projeção regional que a Venezuela nunca teve. O país mantém uma rede de aliados e milícias no Oriente Médio — do Hezbollah no Líbano aos houthis no Iêmen —, que já ampliou o alcance do conflito em curso. Sua posição geográfica é igualmente estratégica: o Estreito de Ormuz, em sua costa ocidental, é passagem obrigatória de 20% do petróleo mundial, cerca de 20 milhões de barris diários avaliados em mais de US$ 500 bilhões por ano.
Um colapso iraniano, portanto, não é só um problema regional. “O país se estende do golfo Pérsico ao mar Cáspio, no cruzamento entre Ásia, África, Europa e Eurásia. Um planalto desestabilizado, com mais de 90 milhões de pessoas, teria repercussões por muito tempo”, alerta Toosi. A resistência iraniana não é improviso: o regime montou uma estratégia deliberada de desgaste, apostando que prolongar o conflito elevaria os custos para EUA e Israel até forçar uma negociação — algo que nunca esteve em jogo na Venezuela.
Há ainda um fator que distingue radicalmente os dois cenários: Israel. Enquanto Trump poderia aceitar um acordo que preservasse parte do regime iraniano — como aceitou o chavismo na Venezuela —, o governo de Benjamin Netanyahu quer o fim completo da teocracia. “Provavelmente prefeririam o caos ou até a implosão do Irã a um acordo desse tipo”, diz Toosi. A intenção ficou explícita quando Trump declarou que precisa se envolver pessoalmente na escolha do próximo líder supremo iraniano — o mesmo modelo de intervenção direta que usou para capturar Maduro em janeiro, pressão que marca uma diferença fundamental em relação ao caso venezuelano.