O Ibovespa atingiu recorde histórico em 2026, superando pela primeira vez os 190 mil pontos, impulsionado por uma enxurrada de capital estrangeiro que somou R$ 42,56 bilhões nos dois primeiros meses do ano — o terceiro maior volume para o período em uma década.
A escalada do conflito no Oriente Médio, após ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, mudou o cenário abruptamente. Desde o início da guerra, o índice acumula queda de quase 5% e voltou ao patamar dos 180 mil pontos.
Maior entrada de capital em quatro anos
Em janeiro de 2026, o Ibovespa registrou a entrada de R$ 26,4 bilhões em recursos externos — o maior valor desde fevereiro de 2022. Em fevereiro, mais R$ 16,9 bilhões completaram o saldo de R$ 42,56 bilhões, bem acima dos R$ 26,87 bilhões registrados no mesmo período do ano anterior, segundo a consultoria Elos Ayta.
O recorde histórico para os dois primeiros meses ainda pertence a 2022, quando o investimento estrangeiro na bolsa brasileira somou R$ 119,7 bilhões no ano inteiro. O desempenho de 2026, ainda assim, é o terceiro maior da última década para o período.
O fluxo se refletiu diretamente nos preços: o Ibovespa bateu recordes oito vezes em janeiro e mais cinco em fevereiro, totalizando 13 máximas históricas em dois meses — ritmo que supera as 32 máximas registradas ao longo de todo o ano passado.
Por que o capital estrangeiro voltou ao Brasil
Para Flávio Conde, analista da Levante Investimentos, fatores estruturais explicam a atratividade do mercado brasileiro: ações baratas em dólar, perspectiva de queda dos juros locais e risco crescente nas bolsas americanas, onde as ações de tecnologia já operam em níveis elevados. Na avaliação de Conde, eventuais quedas podem ser vistas como oportunidade de compra, com potencial de o Ibovespa testar os 200 mil pontos no médio prazo.
Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, adota postura mais cautelosa. Para ele, a ampliação do conflito pode reduzir o fôlego do mercado no curto prazo — especialmente se ganhar força o movimento global de flight to quality, quando investidores abandonam bolsas e países emergentes em favor de ativos considerados mais seguros, como dólar e ouro.
O pano de fundo econômico já era delicado antes da guerra: com a Selic em 15% e o PIB crescendo apenas 2,3% em 2025, o Brasil entrou em 2026 com ações baratas em dólar — justamente o fator que atraiu o capital estrangeiro, mas que o conflito agora coloca em risco. Veja como a guerra no Irã ameaça os rumos da economia brasileira em 2026.
A pressão sobre os mercados tem raiz também no petróleo: analistas e a revista The Economist projetam que o barril pode chegar a US$ 100 caso o Estreito de Ormuz siga bloqueado — cenário que alimenta a aversão ao risco global e pode inviabilizar novos recordes na bolsa.
O impacto já se espalhou por outros mercados: enquanto investidores migravam para ativos mais seguros, o dólar disparou a R$ 5,31 e as bolsas globais registraram perdas expressivas no sétimo dia de guerra.