Seis dias após os ataques americanos à indústria de mísseis do Irã, Teerã respondeu com uma ofensiva inédita: mais de 2.000 drones de baixo custo lançados contra alvos em todo o Oriente Médio.
Os drones Shahed, chamados de kamikaze, carregam explosivos que detonam no impacto. O ataque mais letal até agora atingiu uma base no Kuwait e matou seis soldados americanos.
Além de bases militares, os projéteis atingiram embaixadas, refinarias de petróleo, terminais de gás natural liquefeito, aeroportos e hotéis de luxo em países aliados dos EUA no Golfo Pérsico.
O drone mais barato da guerra moderna
O Shahed-136, principal modelo utilizado nos ataques, custa entre US$ 20 mil e US$ 50 mil — equivalente a R$ 106 mil e R$ 266 mil. Com alcance de até 2.500 km, poderia voar de Teerã até Atenas.
O drone não pode ser controlado remotamente durante o voo. É pré-programado antes do lançamento para seguir uma rota por sistema de navegação via satélite. Voa em baixa altitude e tem perfil fino, dificultando a detecção por radares projetados para interceptar mísseis.
Vídeos verificados pela BBC mostram um drone atingindo uma instalação de radar no quartel-general da Quinta Frota da Marinha dos EUA em Manama, Bahrein, e outro se chocando contra um hotel em Palm Jumeirah, Dubai, gerando uma bola de fogo que reverberou pela cidade.
Os ataques ao setor energético foram os mais impactantes. A maior refinaria da Arábia Saudita, em Ras Tanura, interrompeu a produção após incêndio causado por destroços de drone interceptado. No Catar, o maior terminal de exportação de gás natural liquefeito do mundo foi fechado após ser alvejado.
O modelo Shahed já havia sido usado em larga escala pela Rússia na guerra da Ucrânia para atingir cidades e usinas de energia. O Irã exportou os drones ao aliado nos últimos anos, e os russos passaram a produzir suas próprias versões baseadas no projeto iraniano.
Estratégia de esgotamento e pressão psicológica
Por trás da avalanche de drones, há uma doutrina deliberada. A tática faz parte de uma guerra de atrito calculada: forçar os adversários a gastar interceptadores de alto custo contra projéteis baratos, tornando o conflito financeiramente insustentável até que negociem.
O custo de cada interceptação é elevado. Quando o Irã atacou Israel com centenas de drones em 2024, o Reino Unido teria usado caças da RAF com mísseis de £ 200 mil cada — cerca de R$ 1,4 milhão por drone abatido. Os Emirados Árabes afirmam que mais de 1.000 drones iranianos foram disparados contra o país, e 71 furaram as defesas.
Nicholas Carl, especialista em Irã do American Enterprise Institute, afirma que o regime busca impor terror e pressão psicológica sobre os EUA e seus parceiros regionais para forçar Donald Trump a aceitar um cessar-fogo. Mick Mulroy, ex-oficial paramilitar da CIA e ex-subsecretário de Defesa para o Oriente Médio, disse à BBC que os drones se provaram altamente eficazes — tanto que os próprios EUA desenvolveram sua versão.
Dias após o início dos ataques, Trump acionou a produção emergencial de armamentos para repor os interceptadores consumidos pela avalanche de drones iranianos. O almirante Cooper informou que o lançamento de drones caiu 83% desde o primeiro dia de combates, e o de mísseis balísticos, 90% — reflexo dos impactos acumulados sobre o arsenal iraniano.