Sem perspectiva de vencer uma guerra convencional, o Irã decidiu transformar o conflito com os Estados Unidos e Israel em um embate de resistência prolongada. A estratégia de Teerã, segundo especialistas, é tornar o confronto tão custoso e desgastante que force os adversários a negociar.
Com lançamentos de mísseis em queda de 86% desde o início dos combates, em 28 de fevereiro, o país ainda mantém arsenal significativo — incluindo mísseis de médio alcance e dezenas de milhares de drones kamikaze Shahed.
A guerra de atrito como doutrina
O especialista H. A. Hellyer, do Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança (Rusi), explica que o objetivo iraniano não é derrotar os EUA ou Israel em campo aberto, mas tornar o conflito “prolongado, regionalmente disperso e economicamente caro”. A professora Nicole Grajewski, da Sciences Po, define isso como uma clássica guerra de atrito: desgastar o adversário drenando seus recursos e infligindo perdas sustentadas até enfraquecer sua capacidade de combate.
A estratégia também carrega uma dimensão psicológica. Durante a chamada Guerra dos 12 Dias, o Irã direcionou ataques mais diretamente a áreas civis israelenses — movimento que especialistas interpretam como pressão sobre a população.
Mísseis, drones e o bloqueio de Ormuz
Israel estimava que o Irã possuía cerca de 2,5 mil mísseis em fevereiro de 2026, entre sistemas de curto e médio alcance. Teerã empregou projéteis como o Sejjil, com alcance de 2 mil km, e o Fattah, descrito como hipersônico. Mesmo assim, o Comando Central americano (Centcom) registrou queda de 86% nos lançamentos de mísseis balísticos e de 73% nos drones desde o início do conflito.
O Irã ainda detém capacidade de atingir infraestrutura israelense, bases americanas na região e aliados do Golfo. O Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, está efetivamente fechado: Teerã prometeu atacar qualquer navio que tente cruzá-lo.
Os drones Shahed cumprem ainda um papel estratégico além dos danos diretos: desgastam os sistemas de defesa aérea ao longo do tempo, forçando adversários a consumir interceptadores de alto custo para neutralizar projéteis baratos em grande volume.
Coesão interna e risco de escalada
A continuidade da estratégia iraniana depende, em grande parte, da unidade entre a elite política e militar do país. “Realmente depende de como essa elite permanece unida e se existem cismas”, avalia Grajewski. Divisões internas, combinadas com os ataques contínuos aos estoques de mísseis, podem gerar uma escalada inadvertida e descontrolada.
O Irã ainda sustenta uma rede de aliados regionais — houthis no Iêmen, grupos armados no Iraque, Hezbollah no Líbano e Hamas nos territórios ocupados. Mas o autodenominado Eixo da Resistência acumulou baixas expressivas desde o ataque do Hamas a Israel em outubro de 2023. A resiliência iraniana tem raízes históricas: na Guerra Irã-Iraque (1980-1988), Teerã resistiu a bombardeios repetidos sobre suas cidades mesmo em desvantagem convencional.
Turquia como mediadora e a aposta arriscada de Teerã
A Turquia, vizinha do Irã e integrante da Otan, informou que suas defesas aéreas destruíram um míssil balístico iraniano em rota ao seu espaço aéreo em 4 de março. Ankara havia tentado mediar negociações entre Teerã e Washington antes dos combates, pedindo que todas as partes evitassem ações que gerassem escaladas maiores.
A aposta iraniana é tornar as condições tão intoleráveis para os países vizinhos que eles pressionem Washington por um acordo negociado. Mas o tiro pode sair pela culatra: conforme alerta Hellyer, os países do Golfo podem concluir que apoiar a campanha americana é o caminho mais rápido para eliminar a ameaça direta do Irã sobre seus próprios territórios.