A ofensiva de Estados Unidos e Israel contra o Irã e a retaliação iraniana sobre países do Golfo Pérsico expuseram uma fratura inédita no Brics: dez membros, um conflito que envolve um deles — e nenhuma declaração conjunta.
Enquanto Brasil, Rússia e China condenaram o ataque israelo-americano, Índia e Emirados Árabes Unidos concentraram suas críticas na retaliação iraniana. A África do Sul tentou equilibrar. O bloco, que em 2025 emitiu nota unânime sobre conflito semelhante, agora não encontra consenso.
Contraste com 2025 revela nova dinâmica interna
Em junho de 2025, durante a chamada guerra de 12 dias, os dez membros do Brics emitiram nota conjunta condenando os ataques israelenses como “violação do direito internacional”. O conflito atual não produziu consenso equivalente. A diferença está nos alvos: desta vez, a retaliação iraniana atingiu aeroportos civis, refinarias e instalações em países do Golfo que também integram o bloco — incluindo os Emirados Árabes Unidos.
Teerã insiste que mira exclusivamente bases americanas na região. “Não estamos atacando nossos vizinhos, estamos atacando a presença dos EUA nesses países”, disse o chanceler iraniano Abbas Aragchi. Mas danos registrados em alvos civis contradizem a versão oficial. Mísseis e drones atingiram Bahrein, Catar, Omã, Jordânia, Síria, Iraque, Kuwait e Arábia Saudita.
Os ataques ao Golfo seguem uma lógica de pressão calculada: ao tornar o conflito custoso para países aliados dos EUA, o Irã tenta forçá-los a demandar um cessar-fogo de Washington, conforme análise do Tropiquim sobre a estratégia de guerra de atrito adotada por Teerã.
Posições divergentes membro a membro
Rússia e China foram os mais enfáticos na condenação do ataque israelo-americano. Moscou classificou a ação como “ato não provocado de agressão armada”. Pequim afirmou que os ataques “violam o direito internacional”. Nenhum dos dois, porém, sinalizou disposição de ir além das palavras em defesa do Irã.
A Indonésia usou linguagem genérica e se ofereceu como mediadora. A Etiópia manteve-se discreta. O Egito evitou comentar o ataque inicial e pediu que o Irã cessasse as operações no Golfo. Entre os membros originais, o Brasil foi a única democracia a nomear explicitamente EUA e Israel na condenação — e depois também condenou a retaliação iraniana, solidarizando-se com sete países-alvo.
A presidência rotativa do Brics é ocupada pela Índia — país com relações estreitas com EUA e Israel. Diplomatas brasileiros não esperam que Nova Délhi convoque reunião para articular posicionamento comum sobre o conflito.
O premiê Narendra Modi evitou comentar o ataque que matou o líder supremo iraniano Ali Khamenei, mas condenou publicamente as retaliações iranianas sobre países do Golfo. Relatou telefonema com o premier israelense Benjamin Netanyahu sem registrar qualquer contato com autoridades de Teerã — postura que gerou críticas da oposição indiana.
O racha não se limita ao bloco: a Europa também se dividiu sobre os ataques americanos ao Irã, com a Espanha vetando o uso de bases americanas em seu território enquanto o Reino Unido as autorizava — fissura que gerou crise diplomática imediata com Washington.
A fragilidade não é novidade. Em 2025, o assessor especial de Lula, Celso Amorim, já advertia que o Brics “não poderia se expandir indefinidamente” sem perder “coesão”. Em abril daquele ano, uma reunião de chanceleres já havia terminado sem comunicado conjunto — sinal de que a tensão interna antecede o conflito atual.