O Banco de Brasília (BRB) enfrenta quatro riscos simultâneos após absorver mais de R$ 12 bilhões em carteiras do Banco Master com indícios de fraude. A crise já custou ao banco a nota ‘CCC’ das agências Fitch e Moody’s — o patamar de maior risco antes do calote.
O Banco Central avalia que o BRB precisa de ao menos R$ 5 bilhões para cumprir as exigências prudenciais. O banco tem até o fim de março para apresentar o plano de capital ao BC e ao sistema financeiro.
Os quatro riscos que cercam o BRB
Patrimônio prudencial
O problema central é a fragilidade patrimonial herdada do escândalo. A Operação Compliance Zero revelou que o Banco Master fabricou carteiras de crédito fictícias e emitiu CDBs com até 177% do CDI para encobrir um rombo bilionário — ativos que o BRB absorveu sem perceber o esquema.
Para reconstruir o capital, o banco vai à assembleia de acionistas no dia 18 propor a emissão de até 1,67 bilhão de ações ordinárias, com potencial de captação entre R$ 529 milhões e R$ 8,86 bilhões. Para lastrear a operação, a Câmara Legislativa do DF aprovou o repasse de nove imóveis públicos ao BRB — avaliados em R$ 6,6 bilhões.
Governança e custo de crédito
O rebaixamento para ‘CCC’ pelas duas agências indica alto risco de inadimplência. Com nota baixa no Capag, o GDF não pode usar a União como garantidora de empréstimos. O afastamento judicial de executivos reforça a percepção de desorganização interna e eleva o custo de qualquer crédito futuro.
Crise de liquidez
Converter os R$ 12 bilhões em créditos podres em dinheiro é o terceiro risco. Os ativos têm baixo valor real e podem ser difíceis de liquidar. Especialistas consultados consideram esse risco ainda pequeno — porque o GDF, com seu imenso patrimônio imobiliário, pode segurar o banco. O custo, no entanto, recai sobre a população do DF.
Percepção do mercado
A Fitch retirou a expectativa automática de socorro do GDF ao BRB, sinalizando que o apoio do governo distrital não é mais considerado garantido pela agência. Processos judiciais em curso ampliam a incerteza sobre o tamanho total das perdas.
Os planos de salvamento
Fundo imobiliário e socorro do GDF
A hipótese preferencial do BRB é criar um fundo imobiliário lastreado nos nove imóveis aprovados pela Câmara Legislativa — projeto que o governador Ibaneis Rocha (MDB) deve sancionar nos próximos dias. O próprio banco estima que uma liquidação custaria entre R$ 20 e R$ 25 bilhões ao FGC, o que torna o fundo imobiliário o argumento mais sólido para evitar o colapso.
O mesmo FGC que o BRB estuda acionar para socorro já havia sido drenado em R$ 38,4 bilhões pelas liquidações do grupo Master, forçando bancos associados a antecipar cinco anos de contribuições para recompor o caixa. Um eventual empréstimo apenas rolaria a dívida enquanto o banco busca capitalização mais sólida.
Recuperação judicial e bloqueio de ativos
Na Justiça, o BRB acionou o STF para ter prioridade na distribuição dos recursos do Master sob liquidação judicial. O banco também conseguiu bloquear R$ 376,4 milhões em participações de Daniel Vorcaro e outros dois investigados — valor que pode ser reintegralizado ao término do processo, em meses ou anos.
Federalização: o cenário que o BRB rejeita
Se o GDF não tiver fôlego fiscal para o socorro, a federalização — transferência do controle para a União — entra em pauta política. O presidente do banco, Nelson Antônio de Souza, nega qualquer possibilidade de liquidação ou federalização. Ministério da Fazenda, GDF e Banco Central não responderam sobre o tema à imprensa.