O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, abriu divergência pública com a Procuradoria-Geral da República ao registrar, em despacho, que a demora na análise de medidas cautelares no caso Master é “extremamente perigosa para a sociedade”.
A PGR havia dito não enxergar “perigo iminente” nas solicitações da Polícia Federal, que pediu, em 27 de fevereiro, a prisão preventiva dos investigados. Mendonça rebateu diretamente a posição e encerrou o despacho com a expressão latina tempus fugit — o tempo foge.
Estrutura de vigilância e ameaças documentadas
As investigações da PF apontam que Daniel Vorcaro, ex-sócio do Banco Master, pagava R$ 1 milhão por mês a Phillipi Mourão — apelidado de “Sicário” — para acessar dados sigilosos em sistemas de órgãos públicos. O alvo eram informações pessoais de autoridades, jornalistas e outros indivíduos considerados de interesse do grupo.
A estrutura não se limitava ao monitoramento remoto. Segundo a PF, o grupo também realizava vigilância presencial para “neutralizar” situações sensíveis. Entre as provas que Mendonça considerou ignoradas pela PGR estava uma sindicância interna do Banco Central envolvendo servidores que supervisionavam o Master.
Em trocas de mensagens obtidas pela polícia, Vorcaro reclama de um jornalista e ordena: “tinha que colocar gente seguindo esse cara. Para pegar tudo dele”. Em novo diálogo, vai mais longe: “quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”.
Para Mendonça, ignorar esse conjunto de evidências seria irresponsável. O ministro afirmou que a postura da PGR diante de “robusto quadro fático-probatório” é perigosa — e que há risco concreto à integridade física e moral de cidadãos comuns, jornalistas e autoridades públicas.
Bilhões em jogo e efeito imediato
Além do risco às pessoas, Mendonça alertou que a demora pode dificultar a recuperação de ativos bilionários desviados em crimes contra o sistema financeiro nacional.
A crítica ao silêncio da PGR teve efeito prático: horas depois do despacho, o ministro assinou a prisão preventiva de Vorcaro e determinou o bloqueio de R$ 22 bilhões em ativos ligados ao caso Master.
No trecho final da decisão, Mendonça recorreu ao latim para sintetizar o argumento. Tempus fugit — “o tempo foge” —, escreveu o relator, deixando claro que, nesta investigação, a espera tem um custo que a sociedade não pode pagar.