O ataque militar dos EUA ao Irã não divide apenas o Oriente Médio — divide também a própria base que elegeu Donald Trump. Entre os apoiadores do presidente, duas alas com visões opostas sobre intervencionismo disputam o rumo da política externa americana.
A análise é do professor de relações internacionais da FGV e pesquisador em Harvard, Oliver Stuenkel, em entrevista ao Jornal da Globo. Para ele, o conflito cria um dilema especialmente delicado para o vice-presidente JD Vance, possível sucessor do movimento MAGA.
Duas alas do trumpismo em choque
De um lado, a ala mais nacionalista e isolacionista do movimento MAGA — da qual JD Vance é o principal representante — que votou em Trump esperando uma política externa menos intervencionista, sobretudo no Oriente Médio. Do outro, uma ala republicana tradicional, encampada por senadores como Lindsey Graham e Ted Cruz e por setores da mídia conservadora, que defende presença americana ofensiva na região.
Para Stuenkel, a ofensiva coloca Vance em contradição direta com sua própria trajetória política. “Isso explica por que inicialmente ele teve uma postura bastante passiva durante os primeiros dias do conflito”, afirma o professor. Vance, que marcou sua carreira com críticas às intervenções militares americanas, enfrenta agora o desafio de defender um presidente que fez o oposto — justamente no momento em que se projeta como o herdeiro político do MAGA no próximo ciclo eleitoral.
Versões que não batem
A falta de coesão não ficou restrita à base — ela apareceu no topo do próprio governo. Em menos de 24 horas, Trump e o secretário de Estado Marco Rubio apresentaram justificativas distintas para o ataque ao Irã.
Na noite de segunda-feira (2), Rubio afirmou que Washington antecipou uma ação israelense e agiu preventivamente para evitar baixas americanas. Na tarde de terça (3), Trump disse que os EUA já acreditavam que o Irã atacaria primeiro — e chegou a sugerir que pode ter “forçado a ação de Israel”. Horas depois, Rubio voltou a público para alinhar sua versão à do presidente, descrevendo as negociações como fracassadas e a ameaça iraniana como “insustentável”.
No quarto dia da ofensiva, Trump revelou querer ‘alguém de dentro’ do regime iraniano para assumir o poder após os ataques — objetivo político que ajuda a entender por que as versões sobre as razões da guerra soaram tão desencontradas desde o início.
Custo político ainda incerto
Para Stuenkel, o impacto eleitoral imediato ainda é difícil de mensurar. “Me parece que o custo político ainda não é tão grande assim, porque dependerá da duração e do custo econômico e humano para os EUA”, avalia. Um aumento no número de vítimas americanas, contudo, poderia reverter o cenário — o cansaço com guerras prolongadas é um fator historicamente sensível no eleitorado americano.
Apoiadores do presidente já expressam frustração com a falta de clareza sobre os objetivos do conflito. Para o pesquisador, as mensagens contraditórias revelam ausência de coesão estratégica no governo — e opositores passaram a questionar publicamente se o ataque atende de fato aos interesses nacionais americanos.
O custo econômico que Stuenkel aponta como fator decisivo já começa a aparecer: desde o início dos bombardeios, o barril de petróleo Brent superou US$ 82 e pode chegar a US$ 100, segundo análise da The Economist — uma variável que pode acelerar o desgaste político de Trump caso a guerra se prolongue além do esperado.