Segundo um relatório divulgado em 2025, a Terra já rompeu sete dos nove limites planetários definidos por cientistas para garantir a estabilidade do sistema terrestre. O estudo, conduzido pelo Instituto Potsdam para Pesquisa sobre o Impacto Climático (PIK), destaca que os oceanos entraram na zona de perigo, principalmente devido à acidificação, poluição e perda de biodiversidade. Apenas a camada de ozônio e os aerossóis ainda permanecem dentro dos limites considerados seguros.
O que são limites planetários
Os limites planetários são nove processos ambientais essenciais para a estabilidade do planeta, definidos para indicar até onde as atividades humanas podem ir sem comprometer a segurança da humanidade. Entre eles estão mudanças climáticas, uso da terra, biodiversidade, ciclos de nitrogênio e fósforo, uso de água doce, poluição química, acidificação dos oceanos, aerossóis e camada de ozônio.
Oceanos em risco
O novo relatório mostra que, em 2025, a acidificação dos oceanos ultrapassou a fronteira de segurança, algo que no ano anterior estava apenas no limite. O fenômeno é causado principalmente pela absorção de CO₂, afetando organismos marinhos como corais e moluscos. O nível de saturação em aragonita global está em 2,80, próximo do limite seguro de 2,75. Danos já são visíveis em espécies como pterópodes, pequenos moluscos que servem de base para cadeias alimentares.
Além disso, a poluição e a perda de biodiversidade marinha contribuem para a degradação dos oceanos, que atuam como reguladores climáticos globais e fornecedores de oxigênio. “O oceano está se tornando mais ácido, os níveis de oxigênio estão caindo e as ondas de calor marinhas estão aumentando. Isso pressiona um sistema vital para estabilizar o planeta”, afirmou Levke Caesar, co-líder do laboratório de limites planetários do PIK.
Outros limites ultrapassados
O relatório aponta que, além dos oceanos, outros seis processos já ultrapassaram níveis seguros: mudanças no uso da terra (com desmatamento e urbanização), mudanças climáticas (aumento dos gases de efeito estufa), biodiversidade (extinção de espécies), ciclos do nitrogênio e fósforo (uso excessivo de fertilizantes), uso de água doce (alterações em rios, lagos e aquíferos) e poluição química (microplásticos e substâncias sintéticas). Apenas a camada de ozônio e os aerossóis permanecem dentro dos limites.
Consequências e recomendações
A transgressão dos limites planetários ameaça a estabilidade do sistema terrestre, podendo resultar em eventos climáticos extremos, colapso de ecossistemas e impactos severos sobre a biodiversidade e a vida humana. Segundo Karina Lima, climatologista, “estamos vivendo o período mais quente em cerca de 125 mil anos por causa do aquecimento global antropogênico”.
O relatório recomenda ações urgentes para reduzir a poluição, proteger ecossistemas marinhos, limitar as emissões de gases de efeito estufa e restaurar áreas naturais. Dados de 2024 mostram que fluxos de fósforo para os oceanos chegaram a 22,6 Tg P por ano (limite seguro: 11 Tg P), e a fixação de nitrogênio industrial alcançou 190 Tg N por ano (limite: 62 Tg N), ultrapassando margens de segurança e causando eutrofização e zonas mortas em ambientes aquáticos.
Desmatamento e biodiversidade
Entre 2000 e 2018, quase 90% da desflorestação direta foi causada pela expansão agrícola, com 52,3% relacionada ao cultivo de alimentos e 37,5% à criação de gado. A cobertura florestal global está em 59% do que poderia ser, abaixo do nível seguro de 75%. O relatório indica que pelo menos 73 grupos de vertebrados desapareceram nos últimos 500 anos, evidenciando a crise da biodiversidade.
O estudo reforça que, sem controle sobre o aumento da temperatura global e a pressão sobre recursos naturais, a frequência e intensidade de eventos extremos deve aumentar. “Se não tomarmos medidas imediatas, estaremos acelerando ainda mais a crise climática e a perda de biodiversidade”, alerta Renata Piazzon, diretora-geral do Instituto Arapyaú, que contribuiu para o relatório.