Os Correios enfrentam uma grave crise financeira, marcada por sucessivos prejuízos e o pior início de ano desde 2017. Desde fevereiro, transportadoras terceirizadas acumulam atrasos nos pagamentos e, após tentativas frustradas de negociação, passaram a cobrar judicialmente R$ 104 milhões em faturas atrasadas. As ações tramitam desde abril de 2025 na Justiça Federal.
Enquanto a estatal tenta normalizar os pagamentos, parte das empresas reduziu serviços, impactando a entrega de encomendas em todo o país. O cenário se agrava com o pedido de demissão do presidente dos Correios, Fabiano Silva, em meio a pressões políticas.
Crise financeira e ações judiciais
O levantamento dos processos, feito pelo g1, identificou 58 ações de 41 empresas que prestam serviços de transporte para os Correios. Os atrasos nos pagamentos, que começaram em fevereiro, levaram as empresas a assinarem cartas públicas em março, anunciando paralisações a partir de 1º de abril. Mesmo assim, os repasses não foram regularizados, e as empresas passaram a pedir na Justiça a quitação das faturas e a suspensão de cláusulas contratuais que as penalizam em caso de paralisação.
Em decisões da Justiça Federal, parte das transportadoras conseguiu suspender penalidades e garantir a cobrança dos valores devidos. Os valores das faturas em atraso variam de R$ 80 mil a R$ 34 milhões, com média de R$ 2,5 milhões por empresa. A Sideral Linhas Aéreas, responsável por voos para entrega de encomendas em várias capitais, lidera as cobranças com R$ 34 milhões em aberto.
Impacto operacional e justificativas
Os atrasos sufocaram o fluxo de caixa das transportadoras, que alegam dificuldades para manter operações e honrar compromissos financeiros, como financiamentos de frotas e salários. Em nota, os Correios afirmaram que vêm realizando pagamentos graduais e mantendo diálogo com parceiros para assegurar a continuidade das operações. A estatal também destacou que os contratos preveem indenização por atrasos, com juros e multas, e que a crise afeta todos os fornecedores.
Segundo a defesa da Sideral, a situação chegou ao ponto de comprometer o funcionamento das empresas, que passaram a custear sozinhas a operação de transporte postal, com atrasos acumulando até 90 dias.
Paralisações e atrasos nas entregas
A partir de abril, as transportadoras reduziram a frota em operação, o que resultou em atrasos nas entregas e aumento das reclamações nas redes sociais. Advogados das empresas relataram que a falta de pagamentos chegou a inviabilizar até o pagamento de pedágios, tornando impossível manter caminhões em circulação. Apesar disso, os Correios afirmam que a prestação de serviços segue os percentuais mínimos exigidos para atender as rotas nacionais, regionais e urbanas.
Decisões judiciais e repercussão
Entre os 41 processos analisados, 32% tiveram pedidos totalmente acatados, incluindo quitação das faturas e suspensão de multas. Outros 23% foram parcialmente aceitos, suspendendo apenas as penalidades contratuais. Em oito casos, a tutela de urgência foi negada. Os processos envolvem 79 empresas terceirizadas, com valores expressivos em disputa.
Saída do presidente dos Correios
Em meio à crise, o presidente dos Correios, Fabiano Silva, apresentou carta de demissão ao Palácio do Planalto na sexta-feira (4). A saída ainda não foi oficializada, mas interlocutores atribuem a decisão à pressão do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, por mudanças na presidência da estatal.