O agronegócio brasileiro fechou 2025 com um recorde histórico de endividamento: foram 1.990 pedidos de recuperação judicial, alta de 56,4% sobre 2024, segundo levantamento da Serasa Experian divulgado nesta segunda-feira (9).
O número supera todos os registros desde o início da série histórica, em 2021. Em 2024 foram 1.272 pedidos; em 2023, apenas 534.
Juros elevados, custos de produção em alta e alavancagem excessiva são os fatores apontados pela datatech para explicar a deterioração financeira do setor.
Mato Grosso concentra o maior volume de pedidos
Entre os estados, Mato Grosso liderou com 332 registros em 2025 — resultado expressivo para o maior produtor brasileiro de soja, milho, algodão e gado. Na sequência aparecem Goiás (296), Paraná (248), Mato Grosso do Sul (216) e Minas Gerais (196).
Crescimento mais intenso entre produtores pessoa jurídica
A abertura por perfil revela que produtores rurais como pessoa física foram o grupo mais numeroso: 853 solicitações, alta de 50,7% sobre 2024. Os produtores pessoa jurídica registraram 753 pedidos, crescimento de 84,1% — o maior avanço proporcional entre os segmentos monitorados.
Empresas da cadeia do agronegócio somaram 384 pedidos, aumento de 29,3% no comparativo anual.
Para Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, “o ambiente de crédito mais restritivo, combinado à manutenção de custos elevados de produção e a uma alavancagem elevada, continuou impactando o fluxo de caixa das operações rurais”.
Cenário macro e conflito externo agravam pressão sobre o campo
O aumento dos pedidos reflete um ambiente econômico deteriorado. Com a Selic a 15% ao ano — o maior patamar em quase duas décadas —, o PIB brasileiro cresceu apenas 2,3% em 2025, e o investimento recuou 3,5% só no último trimestre, estreitando ainda mais o acesso ao crédito para produtores já endividados.
Em março de 2026, nova pressão se soma ao quadro: o conflito no Oriente Médio disparou os preços de fertilizantes e do frete, agravando a situação de quem entrou no ano com dívidas elevadas e margens comprimidas.
Pimenta, da Serasa, reforça que a recuperação judicial “deve ser o último recurso a ser utilizado” e que “a renegociação de dívidas e o planejamento financeiro são as melhores estratégias” — orientação especialmente relevante para os produtores com maior nível de alavancagem, o perfil mais vulnerável do setor.