Política

Documento da PF mostra que Vorcaro sabia da operação antes da fuga

Banco Central e mensagens de Moraes aparecem em relatório sobre articulações do banqueiro
Daniel Vorcaro diante de símbolos da PF e STF; Vorcaro sabia da operação policial antes de fugir

A Polícia Federal detalhou, em documento com sigilo retirado na noite da quinta-feira (10 de setembro), as articulações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro nos dias que antecederam a Operação Compliance Zero, que resultou em sua prisão em 17 de novembro do ano passado.

Segundo a corporação, Vorcaro sabia da operação policial antes de tentar embarcar para a Europa em um avião particular, no aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo — o que reforça a tese de fuga.

Servidores do Banco Central usados para forçar reunião

De acordo com a PF, Vorcaro, ciente da futura e iminente atuação policial, teria se utilizado de servidores do Banco Central que lhe eram subalternos — em razão do pagamento de vantagens indevidas — para forçar uma reunião virtual na véspera da operação. Os mesmos servidores já haviam sido apontados em sindicância interna do BC usada pela corporação para embasar a prisão do banqueiro, segundo investigações anteriores.

O teor dessa reunião com o Banco Central foi um dos argumentos usados pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região para determinar a soltura de Vorcaro e de outros quatro executivos do banco, cerca de dez dias após a prisão.

Novo pedido de prisão e a volta à cadeia

As informações reunidas pela PF foram usadas para embasar um novo pedido de prisão preventiva do banqueiro, assinado em 27 de fevereiro deste ano. O pedido resultou na decisão do ministro André Mendonça que autorizou a prisão de Vorcaro e bloqueou R$ 22 bilhões, e o banqueiro voltou a ser preso em março.

Mensagens com Moraes e o levantamento do sigilo

O relatório da PF também traz uma troca de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro que sinaliza que o próprio ministro discutia com o banqueiro a possibilidade de a PF deflagrar uma operação contra ele. Os diálogos tiveram o sigilo retirado por André Mendonça em 1º de setembro — 48 horas antes da prisão de Vorcaro, na noite de 17 de novembro.

Na quinta-feira (10 de setembro), Mendonça atendeu a pedido do presidente do STF, Edson Fachin, e levantou o sigilo das principais investigações do caso Master que tramitam na Corte, liberando o acesso a inquéritos, reclamações e petições vinculados ao banco. A estrutura apelidada de A Turma, revelada na terceira fase da Operação Compliance Zero, é apontada como o mesmo aparato de vigilância que Vorcaro teria usado para se antecipar à ação policial.

Celina Leão nas mensagens e assédio a jornalista

O mesmo conjunto de documentos revelou, na terça-feira (15 de setembro), uma troca de mensagens entre Vorcaro e o empresário Thiago Miranda datada de 5 de abril de 2025 — época em que Ibaneis Rocha (MDB) governava o Distrito Federal e Celina Leão era sua vice, enquanto a tentativa de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB) estava em andamento. Na conversa, Miranda enviou a Vorcaro uma reportagem sobre declarações de Celina dizendo que não havia sido consultada sobre a operação e que ficara sabendo pela imprensa. Miranda comentou: “A Celina eu conheço MUITO BEM. Ela agora está querendo aparecer porque ficou de fora da negociação.” Vorcaro contestou a afirmação — indicando, segundo a leitura do material, que a governadora não teria ficado de fora das tratativas.

O governo do Distrito Federal negou, em nota, que Celina Leão tenha participado de qualquer negociação em torno da compra do Master pelo BRB. A assessoria afirmou que “as declarações deles comprovam que a governadora Celina Leão sempre foi contra a compra do Master pelo BRB, seis meses antes da deflagração da operação policial”.

O mesmo relatório da PF descreve ainda sucessivas tentativas de assédio à jornalista Malu Gaspar, colunista de O Globo. Segundo a corporação, Thiago Miranda tinha papel central no recrutamento de influenciadores para práticas de assédio e no pagamento a essas pessoas. Nas mensagens, Vorcaro diz que precisava “frear” as reportagens da jornalista sobre supostas irregularidades do banco; Miranda afirmou que agiria para encontrar informações pessoais que pudessem prejudicá-la.