O crédito direcionado — com juros subsidiados e uso obrigatoriamente regulamentado — voltou a crescer no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e hoje representa 43,1% de todo o volume de empréstimos do país, maior patamar desde o fim de 2019.
O Banco Central aponta essa expansão como um fator estrutural que força a manutenção da Selic em níveis mais altos do que seria necessário — atualmente em 14,5% ao ano, o segundo maior juro real do mundo.
A lógica explicada pelo próprio BC é direta: quando grande parte do crédito em circulação não está atrelada à taxa básica de juros, o Copom precisa manter a Selic mais elevada do que seria necessário apenas para conter a inflação. Em março de 2026, o crédito direcionado representou 43,1% do total — o maior índice desde o fim de 2019, no primeiro ano do governo Jair Bolsonaro.
A disparidade entre as taxas deixa clara a distorção: enquanto o crédito direcionado cobrou, em média, 9,3% ao ano desde março de 2011, o crédito com recursos livres chegou a 38,8% no mesmo período — cerca de quatro vezes mais caro.
No comparativo internacional, o Brasil está isolado. Enquanto o México registra 26% do crédito com direcionamento, a maioria dos países mantém esse índice abaixo de 5%, de acordo com estimativas do BC baseadas em países como Colômbia, China, Coreia do Sul e Peru.
A Selic está em 14,5% ao ano após dois cortes realizados pelo Copom em 2026 — mas o próprio BC reconhece que o volume de crédito direcionado limita o espaço para reduções mais agressivas. Gabriel Galípolo, presidente do BC, classificou como algo de “idiossincrático” o fato de o país conviver com juro real próximo de 10% ao ano, inflação acima da meta e desemprego na mínima histórica.
Analistas veem na expansão do crédito subsidiado uma estratégia fiscal disfarçada: com o arcabouço fiscal limitando novos gastos diretos, o governo Lula tem ampliado as linhas de crédito favorecido em ano eleitoral como forma alternativa de injetar recursos na economia. Em maio, o CMN já havia reduzido os juros do Reforma Casa Brasil para 0,82% ao mês — exatamente o tipo de linha subsidiada que, segundo o BC, pressiona a Selic para cima.
Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o caminho deveria ser inverso: um corte mais intenso de gastos para promover a queda dos juros em todos os setores, em vez de concentrar a injeção de recursos em linhas específicas de crédito.
A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) reconhece que quanto maior a participação do crédito direcionado, menor a potência da política monetária — mas pondera que a aceleração atual é bem menos intensa do que a verificada no início dos anos 2010, quando o índice chegou perto de 50% entre 2016 e 2017.
O Desenrola 2.0, lançado em maio com novas condições para Pronampe e Procred, é mais um exemplo de como o governo tem ampliado linhas com juros favorecidos em ano eleitoral, na avaliação de analistas do setor.
