O início da safra 2026 de cana-de-açúcar no noroeste paulista chegou acompanhado de uma pressão que os produtores não previram no planejamento: o diesel encareceu cerca de R$ 2 por litro desde que o conflito no Oriente Médio se intensificou.
Em municípios como Ipiguá e Monte Aprazível, na região de São José do Rio Preto (SP), canavieiros já cortam etapas do processo produtivo e buscam alternativas para segurar os custos sem comprometer o plantio.
Alexandre Pinto César, produtor de Ipiguá, cultiva dois mil hectares de cana-de-açúcar distribuídos em 18 áreas na região de São José do Rio Preto e sente diretamente o impacto do combustível mais caro. Segundo ele, a escalada de preços teve início com o conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel.
O diesel chegou a R$ 7,45 o litro no fim de março — alta de 24% desde o início do conflito —, e distribuidoras já relatavam falhas no abastecimento em vários estados, exatamente o que os canavieiros do interior paulista temem para a safra.
Fertilizante soma nova pressão ao custo
Além do combustível, César enfrenta alta nos fertilizantes. Parte do insumo foi adquirida antes do pico de preços, mas o produtor projeta gastos maiores ao longo da temporada. O problema tem raiz no mesmo conflito: o Irã responde por 93,5% das importações brasileiras de fertilizantes, segundo o MDIC — e a guerra ameaça diretamente essa cadeia de abastecimento.
Em Monte Aprazível, a saída encontrada foi reduzir o preparo do solo — estratégia que economiza diesel, mas representa uma concessão técnica com potencial impacto na produtividade da lavoura.
A Associação dos Plantadores de Cana da região aponta um fator agravante: os preços recebidos na safra passada foram baixos, o que já havia limitado a capacidade de investimento dos produtores antes mesmo das altas recentes de insumos.
O setor também monitora de perto o risco de desabastecimento de diesel durante o pico da colheita — cenário que travaria operações de corte e transporte em toda a região canavieira do interior de São Paulo.
O quadro coloca a temporada 2026 sob dupla pressão: custos de produção em alta, puxados pelo combustível e por insumos vinculados ao conflito no Oriente Médio, somados a um histórico recente de receita fraca. Para muitos produtores, a equação da safra ainda não fecha.
