Saúde

Pacientes do Norte percorrem até 6 vezes mais para tratar câncer no SUS

Estudo com 840 mil procedimentos expõe abismo regional no acesso à radioterapia; Amazônia concentra os casos mais críticos
Mapa da região Norte revelando desigualdade regional no acesso à radioterapia pelo SUS

Um estudo publicado em 2026 no International Journal of Radiation Oncology, Biology, Physics analisou mais de 840 mil procedimentos do SUS e chegou a uma conclusão que traduz uma desigualdade histórica: mais de seis em cada dez pacientes oncológicos precisaram sair do próprio município para fazer radioterapia.

A distância média nacional é de 120 quilômetros — mas essa média esconde um contraste profundo. Pacientes do Norte percorrem até seis vezes mais do que os do Sul para acessar o mesmo tratamento.

Para o radio-oncologista Fabio Ynoe de Moraes, pesquisador da Queen’s University e membro da Sociedade Brasileira de Radioterapia, o dado é direto: o acesso ao tratamento oncológico ainda é determinado pelo CEP do paciente.

O CEP como barreira ao tratamento

A desigualdade medida pelo estudo pode ser ainda maior do que os números indicam. A análise calcula distâncias em linha reta entre municípios — um padrão técnico para estudos nacionais, mas que não reflete o trajeto real enfrentado pelos pacientes. Em regiões como a Amazônia, chegar ao tratamento pode significar dias de viagem por rios.

É o que viveu Jakeline Cardoso Lima, dona de casa de 41 anos do interior do Amazonas. Após três dias de barco para chegar a Manaus e confirmar um câncer de colo do útero, ela soube que não havia tratamento disponível em sua cidade — e que teria de permanecer na capital por toda a duração da terapia.

Sem condições de ir e voltar, Jakeline levou uma das filhas, de 16 anos, para ajudá-la durante o tratamento e deixou a mais nova aos cuidados do avô. Foram seis meses fora de casa para completar 28 sessões de radioterapia, além de quimioterapia e outros procedimentos.

A radioterapia não é feita em uma única etapa. Em muitos casos, exige aplicações diárias ao longo de várias semanas — o que transforma a distância em fator decisivo. Segundo Moraes, o peso do deslocamento tende a impactar o início da terapia, fase em que atrasos podem comprometer o controle da doença, e pode influenciar a continuidade do tratamento ao longo das semanas.

O estudo também não incorpora tempo de viagem nem custos indiretos — transporte, alimentação, hospedagem —, o que tende a subestimar o impacto real sobre os pacientes. Quem não consegue encaminhamento ou desiste antes de começar o tratamento sequer entra nos dados.

Equipamentos concentrados, desigualdade ampliada

A radioterapia depende de aceleradores lineares — equipamentos de alta complexidade responsáveis por emitir radiação de forma precisa para destruir células tumorais. No Brasil, essas máquinas estão concentradas em capitais e grandes centros urbanos, enquanto o país enfrenta déficit delas e a incidência de câncer segue crescendo, segundo a Sociedade Brasileira de Radioterapia.

A desigualdade é ainda mais acentuada para procedimentos avançados. Tratamentos como braquiterapia e radioterapia estereotáxica exigem equipamentos disponíveis em poucos centros do país, o que obriga pacientes que precisam dessas terapias a percorrer distâncias superiores às dos casos convencionais.

O padrão não se restringe à radioterapia. Estudo publicado no Lancet já havia documentado que pacientes negros, pardos e de baixa renda atendidos pelo SUS no Norte e Nordeste também se deslocam com mais frequência para tratar câncer colorretal — evidência de que a desigualdade geográfica atravessa diferentes tipos de tumor.

Para Moraes, enfrentar o problema exige mais do que ampliar a capacidade instalada: é preciso reorganizar a rede e direcionar investimentos para regiões com maior carência. Sem expansão planejada e melhor distribuição, a Sociedade Brasileira de Radioterapia avalia que a tendência é de manutenção — ou até ampliação — das disparidades regionais.

Jakeline concluiu o tratamento e está em acompanhamento, com exames indicando remissão da doença. Para chegar até esse resultado, precisou reorganizar completamente a própria vida. Sua trajetória resume o que os dados apontam: no Brasil, tratar câncer ainda depende, em grande medida, de onde se mora.

escrito com o apoio da inteligência artificial
este texto foi gerado por IA sob curadoria da equipe do Tropiquim.
todos os fatos foram verificados com rigor.
Leia mais

Grécia proíbe redes sociais para menores de 15 anos a partir de 2027

Moraes leva ao plenário ação que pode redefinir regras da delação premiada

Irã cobra pedágio de navios no Estreito de Ormuz durante trégua com EUA

Pacientes do Norte percorrem até 6 vezes mais para tratar câncer no SUS