O Espírito Santo sentiu na semana o duplo choque do Oriente Médio: o cessar-fogo anunciado na terça-feira (7) entre Estados Unidos, Israel e Irã durou menos de 24 horas e, na quarta (8), o Irã voltou a fechar o Estreito de Ormuz, rota essencial para o comércio global.
O impasse atinge diretamente o agronegócio capixaba. Produtores de café e pimenta-do-reino relatam dificuldade para fechar novos contratos com o Oriente Médio — região que, só em 2025, comprou US$ 186,2 milhões em produtos do estado.
Ormuz fechado, contas abertas
O Oriente Médio absorveu, em 2025, US$ 119,6 milhões em café e US$ 56,1 milhões em pimenta-do-reino exportados pelo Espírito Santo. Em janeiro e fevereiro de 2026, as vendas já somavam US$ 29,2 milhões — alta de 34,1% sobre o mesmo período do ano anterior. As perdas geradas pelo conflito ainda não foram contabilizadas.
O bloqueio do Estreito de Ormuz é o mecanismo central dessa turbulência. Além de encarecer o frete marítimo e elevar os custos de seguro das cargas, o estreito escoa um terço do suprimento global de fertilizantes — insumo que pesa diretamente no custo de produção de pimenta e café capixabas. O impacto do conflito sobre a cadeia agrícola vai muito além do petróleo.
O preço do barril de petróleo reflete a volatilidade: chegou a US$ 120 na semana passada e recuou para US$ 93 na noite de terça (7) com o anúncio da trégua. O dólar chegou a R$ 5,06, nível não visto há pelo menos dois anos no Brasil.
Para o analista de mercado Marcus Magalhães, a rapidez das mudanças é o principal risco. “A dinâmica da guerra é muito rápida. O que aconteceu agora não assegura que o cenário vai se manter”, avaliou. Ele recorreu à metáfora de um cristal trincado: mesmo que o conflito ceda, a instabilidade deixou marca — e o petróleo deve se estabilizar acima dos patamares pré-guerra.
Safra pronta, destino incerto
O Espírito Santo é o maior produtor de pimenta-do-reino do Brasil, com mais de 12 mil propriedades concentradas no norte do estado. A safra de 2026 já foi colhida e está pronta para exportação — mas parte da produção busca comprador, já que 15% da pimenta capixaba tinha o Oriente Médio como destino em 2025, segundo a Secretaria de Estado de Agricultura.
O problema tem uma camada adicional: a pimenta destinada àquela região segue padrão menos rigoroso, o que dificulta o redirecionamento para mercados europeus e asiáticos mais exigentes. “É um produto de menor qualidade. O grande desafio é encontrar novos compradores que aceitem essas características”, explicou o exportador Frank Moro.
Exportadores já prospectam alternativas na Europa, na África e na Ásia. “Estamos dando preferência a outros continentes para continuar vendendo nossas especiarias”, afirmou José Tarcísio Malacarne Júnior. Com o tempo de viagem entre Vitória e o Oriente Médio estimado em pelo menos 30 dias, cargas já embarcadas ainda enfrentam os reflexos do período de maior instabilidade.
Na sexta-feira (10), delegações dos Estados Unidos e do Irã se reúnem em Islamabad, no Paquistão, para negociar um fim definitivo do conflito — mediação conduzida pelo primeiro-ministro Shehbaz Sharif. Ainda na véspera da trégua, o Irã sinalizava que não reabriria o Ormuz facilmente, antecipando o impasse que tornaria o cessar-fogo efêmero. O governo do Espírito Santo informou que acompanha os desdobramentos e seus reflexos sobre o comércio exterior.
