O Conselho de Segurança da ONU vota neste sábado uma resolução do Bahrein para proteger o tráfego comercial no Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irã há mais de um mês. A aprovação, porém, é incerta.
China, Rússia e França — os três membros permanentes com poder de veto — rejeitam qualquer cláusula que autorize uso da força contra Teerã para reabrir a passagem, por onde circula cerca de um quinto do petróleo e gás do planeta.
A resolução, finalizada pelo Bahrein na condição de presidente do Conselho neste mês, autorizaria “todos os meios defensivos necessários” para garantir a navegação comercial pelo estreito por ao menos seis meses. A votação foi remarcada de sexta-feira — feriado na ONU — para a manhã de sábado.
O enviado da China à ONU, Fu Cong, foi direto: autorizar o uso da força “legitimaria o uso ilegal e indiscriminado da força” e abriria caminho para uma escalada com “graves consequências”. China, França e Rússia já haviam sinalizado oposição formal ao quebrar o chamado “procedimento de silêncio” em uma versão anterior do texto — mecanismo cujo rompimento equivale a um bloqueio antecipado.
O nó diplomático
O ponto central da discórdia é uma cláusula que autoriza países a usar “todos os meios necessários” para garantir a passagem e impedir tentativas de bloqueio. Para as potências contrárias, a redação é ampla demais e abre margem para operações ofensivas além do caráter defensivo previsto.
Para ser aprovada, a resolução precisa de ao menos nove votos favoráveis entre os 15 membros do Conselho e não pode sofrer veto de nenhum dos cinco permanentes: Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China.
O bloqueio que hoje paralisa a diplomacia foi decretado pelo Irã logo após os ataques americanos e israelenses de 28 de fevereiro, transformando a passagem — por onde transitam entre US$ 300 milhões e US$ 360 milhões em petróleo por dia — em zona de guerra. Desde então, os preços globais de energia, transporte e seguros acumulam altas expressivas, sem perspectiva clara de reversão.
O ministro das Relações Exteriores do Bahrein, Abdullatif bin Rashid Al Zayani, classificou a postura iraniana como “tentativa ilegal e injustificada” de controlar a navegação, afirmando que Teerã também teria atacado estruturas civis — aeroportos e portos — e que a situação exige uma “resposta decisiva” da comunidade internacional.
O Irã, por sua vez, deixou claro que pretende manter a supervisão do tráfego no estreito mesmo após o fim do conflito, posição que, segundo analistas, esvazia a utilidade prática de qualquer resolução aprovada sem respaldo de força real.
França, EUA e o peso simbólico do texto
A postura de Paris não surpreende: há menos de duas semanas, a França já havia sinalizado que qualquer operação no estreito teria caráter estritamente defensivo e sem alinhamento com a abordagem norte-americana, ao co-presidir uma reunião militar com outros 30 países sobre a segurança de Ormuz. O presidente Emmanuel Macron classificou a proposta do Bahrein como “irrealista”, citando os riscos de ataques e a presença de mísseis e da Guarda Revolucionária iraniana na região.
Os Estados Unidos afirmam que seguirão com os ataques ao Irã, mas ainda não apresentaram um plano concreto para reabrir o estreito — lacuna que alimenta novas altas nos preços do petróleo. Analistas avaliam que a resolução tem mais peso simbólico do que prático, dado que os países do Golfo têm capacidade militar limitada e dependem fortemente do suporte americano.
O impasse na ONU ganha contornos ainda mais graves diante das ameaças iranianas de mobilizar os houthis para fechar também o Estreito de Bab el-Mandeb — o que poderia isolar simultaneamente cerca de 32% do petróleo transportado por mar no planeta. A combinação dos dois bloqueios representaria o maior choque de oferta energética das últimas décadas.
