A Casa Branca classificou o Pix como uma desvantagem competitiva para gigantes americanas do setor financeiro. O Relatório de Estimativa do Comércio Nacional de 2026, divulgado nesta quarta-feira (1º), aponta o sistema de pagamento instantâneo do Brasil como favorecimento estatal em detrimento de empresas como Visa e Mastercard.
O documento vai além dos pagamentos: também mira mineração ilegal de ouro, desmatamento na Amazônia, atrasos na regulação da LGPD e projetos de lei sobre plataformas digitais — tudo classificado como práticas comerciais desleais contra interesses americanos.
O Pix no alvo de Washington
Esta não é a primeira vez que o sistema de pagamentos instantâneos do Brasil entra na mira americana. Em julho de 2025, o governo Trump abriu uma investigação sem citar o Pix diretamente, mas referenciando “serviços de comércio digital e pagamento eletrônico” oferecidos pelo Estado brasileiro.
“O Brasil parece se envolver em uma série de práticas desleais em relação a serviços de pagamento eletrônico, incluindo favorecer seus serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo”, afirmou o Escritório do Representante Comercial dos EUA na época.
O novo relatório retoma esse argumento, consolidando o Pix como símbolo da disputa comercial bilateral — um sistema que, ao eliminar taxas de bandeiras, reduz o espaço de mercado para empresas americanas no maior país da América Latina.
Regulação digital e proteção de dados
O relatório expressa preocupação com o chamado PL dos Mercados Digitais, projeto que ainda não avançou no Congresso. O documento alerta que seus critérios “afetariam desproporcionalmente empresas dos EUA” e permitiriam multas de até 20% do faturamento global.
Sobre a LGPD, o texto critica atrasos na implementação plena da lei. Desde agosto de 2025, empresas americanas que operam com dados de brasileiros devem manter contratos atualizados e indicar um Encarregado de Dados (DPO).
Recursos naturais e trabalho forçado
O relatório estima que 28% da mineração de ouro no Brasil é ilícita, gerando concorrência desleal contra empresas americanas que seguem padrões ambientais e trabalhistas. Na madeira, aponta que quase 50% do volume total colhido — e 90% da Amazônia — é de origem ilegal, afetando especialmente espécies como ipê e mogno.
A ausência de proibição formal à importação de bens produzidos com trabalho forçado também é apontada como fator de desvantagem competitiva para empresas dos EUA.
Satélites e telecomunicações
Nas telecomunicações, o relatório denuncia assimetria regulatória no setor de satélites: operadores estrangeiros pagam taxas anuais de exploração mais altas do que empresas brasileiras e obtêm apenas direito não exclusivo de operação, por no máximo 15 anos. Companhias nacionais, por outro lado, podem adquirir direitos exclusivos sobre órbitas e frequências.
Sobre a regulação de plataformas pela Anatel, o documento registra que o Ministério das Comunicações anunciou, em novembro de 2024, a desistência da abordagem de taxas de rede — um recuo que Washington acompanhou de perto.
A pressão sobre o Pix se enquadra em uma ofensiva comercial mais ampla: em março, o governo Trump abriu investigações contra 16 grandes parceiros comerciais — incluindo o Brasil — usando a Seção 301 da Lei de Comércio como base legal para novas tarifas.
O relatório de 2026 reforça que o Brasil permanece como alvo prioritário da agenda comercial americana, com uma lista crescente de setores sob escrutínio — dos pagamentos digitais à extração de recursos naturais.
