Um relatório interno do Banco Regional de Brasília (BRB) revelou que os 26 contratos de cessão de crédito entre o Banco Master e a empresa Tirreno tiveram firma reconhecida em cartório apenas dois dias antes de serem entregues ao banco público.
Os documentos envolvem carteiras de crédito consignado compradas pelo Master por R$ 6,3 bilhões e repassadas ao BRB por R$ 11,5 bilhões — ativos que a Polícia Federal classifica como podres, sem lastro real.
O que o relatório do BRB encontrou
O documento foi produzido por um grupo de trabalho do BRB e finalizado em 19 de maio de 2025 — menos de dois meses após o banco anunciar a intenção de adquirir 58% das ações do Banco Master por R$ 2 bilhões.
Segundo o relatório, em 5 de maio o Master compartilhou com o BRB uma pasta contendo os contratos com a Tirreno. No dia seguinte, o BRB solicitou cópias devidamente registradas em cartório e marcou reunião para 9 de maio — encontro que o Master recusou e remarcou para 13 de maio.
A reunião aconteceu, mas sem a presença dos responsáveis pela Tirreno. Dois dias depois, em 15 de maio, o banco de Vorcaro enviou uma pasta com os 26 contratos de cessão. Os documentos apontaram que as assinaturas haviam sido feitas manualmente e que o reconhecimento de firma ocorreu em 13 de maio de 2025 — 19 dias após a última operação registrada entre Master e Tirreno.
O parecer interno também destacou a velocidade com que o Master intermediava os repasses: créditos adquiridos da Tirreno eram transferidos ao BRB já no primeiro dia útil subsequente. “Essa velocidade na revenda, embora possa refletir uma estratégia operacional definida, impõe a necessidade de atenção especial quanto à conformidade documental, à efetiva transferência de risco e à adequação contábil”, registra o documento.
Esquema apurado pela Polícia Federal
As investigações da PF indicam que o BRB comprou cerca de R$ 12 bilhões em carteiras que não pertenciam ao Master e não tinham garantias financeiras. A suspeita é que o banco não tinha fundos suficientes para honrar títulos com vencimento em 2025 e passou a comprar créditos da Tirreno — sem realizar pagamentos — para revendê-los ao BRB com ágio expressivo.
A operação de Carnaval — compra de R$ 143,6 milhões da Tirreno e revenda ao BRB por R$ 251,2 milhões menos de 24 horas depois — é um dos mesmos contratos que, segundo o relatório interno, tiveram a firma reconhecida em cartório apenas 19 dias após a transação.
Durante as negociações, o Master ocultou sistematicamente a Tirreno como originária dos créditos cedidos ao BRB. A equipe do banco público só descobriu a real procedência em visita técnica realizada nos dias 29 e 30 de abril de 2025.
O padrão de evasão do Master já estava documentado: ao longo de abril e maio, o banco cancelou reuniões em série e ignorou cartas formais do BRB — a mesma postura que atrasou a entrega dos contratos com a Tirreno até dois dias antes do prazo crítico.
O Banco Central barrou a operação de aquisição e liquidou o Master na mesma data em que prendeu Vorcaro. O mesmo grupo de trabalho do BRB que identificou as irregularidades nos contratos com a Tirreno já havia detectado, desde abril de 2025, que diversas carteiras cedidas pelo Master não tinham averbação verificável — sinal precoce de que os créditos eram podres.
