Em setembro de 1987, dois catadores encontraram uma máquina de radioterapia abandonada em uma clínica de Goiânia e desencadearam o maior acidente radioativo fora de instalações nucleares da história.
O césio-137 extraído do equipamento se espalhou por famílias, vizinhos e frequentadores de um ferro-velho. Quatro pessoas morreram, 249 apresentaram contaminação significativa e mais de 110 mil foram examinadas.
O caso ganhou nova audiência com a série Emergência Radioativa, estreada na Netflix em março de 2026, que revive como a desinformação amplificou o pânico e como o Brasil enfrentou uma crise sem precedentes.
Como o césio chegou às mãos de dezenas de famílias
Wagner Pereira e Roberto Alves retiraram da clínica a unidade de radioterapia usada em tratamentos contra o câncer e a levaram em um carrinho de mão. Ao abrirem a pesada caixa de chumbo com chaves de fenda, encontraram um cilindro com 19 gramas de césio-137.
A cápsula foi vendida ao ferro-velho de Devair Ferreira. Três dias depois, ele notou um brilho azul emanando do material — achou que poderia ser uma pedra preciosa ou algo sobrenatural — e passou a exibi-lo para vizinhos, parentes e amigos. Há relatos de pessoas que esfregaram o pó radioativo sobre a pele, como se fosse o brilho carnavalesco.
Em 24 de setembro, fragmentos foram colocados na mesa durante uma refeição na casa do irmão de Devair. A filha dele, Leide das Neves Ferreira, de seis anos, tocou o pó enquanto comia e ingeriu parte do material. Em pouco tempo, 12 pessoas foram internadas com diarreia, vômitos, febre alta e queda de cabelo.
Foi María Gabriela Ferreira, mulher do dono do ferro-velho, quem levou a cápsula em um saco plástico até um posto de saúde — 15 dias após o início da contaminação. O físico Walter Mendes Ferreira, convocado para examinar o dispositivo, detectou radiação a 80 metros do local. “Quando estava a cerca de 80 metros do escritório o detector começou a agir de forma estranha”, relatou. Ele impediu que um bombeiro jogasse o cilindro no rio e acionou a Comissão Brasileira de Energia Nuclear (CNEN).
Mais de 110 mil pessoas foram examinadas em um estádio de futebol montado como posto de triagem emergencial. Muitas receberam alta após banho com água e vinagre. Os casos mais graves foram encaminhados a um hospital militar no Rio de Janeiro.
Quatro mortos, 6 mil toneladas de lixo nuclear e pensões vitalícias
A primeira vítima fatal foi a própria Leide das Neves. A menina morreu de septicemia um mês após a exposição. María Gabriela Ferreira, que ajudou a conter o desastre levando a cápsula às autoridades, também não sobreviveu. Outras duas mortes foram registradas entre trabalhadores do ferro-velho.
O enterro de Leide foi marcado por tumulto: moradores atiraram pedras e tijolos no cemitério tentando impedir o sepultamento. “As pessoas acreditavam que os corpos iriam contaminar o cemitério. Muitos no Brasil acreditavam que toda a cidade estava contaminada, que os produtos agrícolas do estado de Goiás estavam contaminados. Havia muita desinformação”, diz Sueli de Moraes, vizinha e hoje presidente da associação de vítimas, que ficou três meses em abrigo especial sem poder sair ou receber visitas.
O desastre gerou cerca de 6.000 toneladas de resíduos nucleares, enterrados a 20 quilômetros da cidade. Dezenas de casas foram demolidas. Ruas inteiras tiveram o pavimento removido. Móveis, veículos, árvores e animais foram descartados como lixo nuclear.
Em 1996, cinco responsáveis pela clínica foram condenados a três anos e dois meses de prisão por homicídio — pena depois convertida em serviços comunitários. O governo passou a pagar pensões vitalícias a cerca de 250 vítimas diretas. Posteriormente, mais 2.000 pessoas, entre bombeiros, policiais e motoristas das unidades de emergência, também passaram a receber os pagamentos.
