Documentos internos do BRB mostram que o Banco Master adotou postura evasiva nas tentativas de resolver pendências em carteiras de crédito. Reuniões foram canceladas em série, cartas formais ficaram sem resposta e dados essenciais nunca foram entregues.
A situação foi registrada em relatórios de abril e maio de 2025 por um grupo de trabalho do Banco de Brasília encarregado de auditar operações do CredCesta — cartão consignado para servidores públicos, aposentados e pensionistas.
O BRB tentou ao longo de 2025 comprar 58% das ações do Master por R$ 2 bilhões. A operação foi bloqueada pelo Banco Central, que liquidou o banco no mesmo dia em que Daniel Vorcaro, seu controlador, foi preso.
Entre os dias 4 e 14 de abril de 2025, técnicos do BRB foram submetidos a uma sequência de adiamentos que o próprio grupo de trabalho classificou formalmente como “constantes remarcações e recusas”. Em uma semana e meia, o Master cancelou ou esvaziou ao menos cinco encontros consecutivos — o primeiro adiado no próprio dia, os seguintes remarcados de última hora ou simplesmente ignorados.
Em paralelo, o BRB enviou ao menos três cartas formais ao Master solicitando esclarecimentos sobre pendências financeiras, critérios operacionais e cumprimento contratual. Apenas um dos pedidos recebeu resposta parcial. Os e-mails também ficaram, em grande parte, sem retorno.
Diante da negativa, o grupo de trabalho realizou duas visitas técnicas presenciais à sede do Master, em São Paulo — entre 15 e 17 de abril e nos dias 29 e 30 do mesmo mês. Na primeira, foram identificados R$ 15,5 milhões em parcelas que constavam nos arquivos mas não haviam sido repassadas financeiramente. O Master reconheceu R$ 14,5 milhões e pagou durante a própria visita.
Relatórios do mesmo grupo de trabalho já haviam revelado que o BRB identificou, desde abril de 2025, que diversas operações cedidas pelo Master não tinham averbação verificável — ou seja, o órgão pagador não tinha sequer registro do contrato.
A segunda visita, ao final de abril, trouxe a revelação central: boa parte das carteiras adquiridas pelo BRB não tinha o Master como origem, mas sim a Tirreno, empresa constituída apenas em 4 de novembro de 2024. O nome só foi revelado presencialmente pelo superintendente executivo de Tesouraria, Alberto Felix — até então, o Master descrevia a origem como “associação”, sem identificá-la.
R$ 12 bilhões em carteiras sem garantia
Segundo as investigações, o BRB comprou R$ 12 bilhões em carteiras de crédito que não pertenciam ao Banco Master e não tinham garantias financeiras. A suspeita central é que o Master não dispunha de recursos para honrar os títulos emitidos com vencimento em 2025 e recorreu à Tirreno para criar uma estrutura de revenda sem pagamento efetivo.
O esquema teria funcionado assim: o Master adquiria créditos da Tirreno sem realizar qualquer desembolso e, em seguida, revendia as carteiras ao BRB. O registro dessas operações também não constava no balanço do Master — o que, conforme o grupo de trabalho, dificultava rastrear e validar os contratos adquiridos.
O rombo estimado em R$ 5 bilhões forçou o BRB a buscar recapitalização emergencial e levou as agências Fitch e Moody’s a rebaixar o banco para nota ‘CCC’ — o patamar de maior risco antes do calote.
