O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou a reunião de despedida dos ministros que deixam o governo para se candidatarem em outubro para fazer um diagnóstico duro: a política “piorou muito”, “virou negócio” e os cargos “têm um preço muito alto”.
O encontro ocorreu nesta terça-feira (31) no Palácio do Planalto e marcou a saída formal de ao menos 14 integrantes do governo, que precisam cumprir a regra de desincompatibilização — afastamento obrigatório de cargos públicos para quem deseja concorrer a mandatos eletivos. O prazo legal encerra no próximo sábado (4).
Lula não poupou as palavras ao avaliar o estado da política, mas distribuiu as responsabilidades. “Todos têm um pouco de culpa”, afirmou, argumentando que muitas vezes, na tentativa de “não criar caso para ninguém”, deixa-se de propor mudanças necessárias.
O presidente também mencionou “a degradação de algumas instituições”, sem identificar quais, mas garantiu que é possível “consertar” o quadro — desde que pela via política e com o envolvimento da população.
A missão dos ministros-candidatos
Para Lula, a saída dos ministros não é apenas uma formalidade legal: é uma convocação. “É possível mudar. Mas só vai mudar se a gente convencer o povo que ele, e somente ele, pode mudar o quadro político com que não concorda. Sem o povo, nada acontecerá”, declarou.
O governo caminha para bater um recorde histórico: ao menos 16 ministros devem deixar suas pastas antes das eleições, número superior ao registrado em governos anteriores no mesmo calendário eleitoral.
Na reforma que se desenha, Lula optou por não convidar pessoas de fora da Esplanada dos Ministérios para preencher as vagas. A escolha, segundo ele, visa garantir a continuidade dos trabalhos em andamento nas pastas que serão reestruturadas.
O discurso de autocrítica ocorre em momento politicamente sensível para o governo. Pesquisa Datafolha de março apontou que 49% dos brasileiros já desaprovam o trabalho do presidente, invertendo o placar em relação a dezembro e sinalizando desgaste a menos de sete meses das eleições gerais.
Eleições como termômetro do governo
Com a desincompatibilização transformando a semana em um rito coletivo de passagem, o PT e os aliados de Lula enxergam outubro como o teste definitivo do capital político acumulado pelo governo. A mobilização popular mencionada pelo presidente tende a se tornar tema recorrente nas campanhas dos ex-ministros.
A decisão de restringir a reforma ministerial ao quadro interno da Esplanada também revela uma estratégia de estabilidade: evitar que disputas por novas cadeiras reabram tensões entre os partidos da base aliada em ano eleitoral, quando a coesão da coalizão é ainda mais determinante.
