O governo Lula caminha para bater o recorde de saídas ministeriais pré-eleitorais da história recente do Brasil. Pelo menos 16 ministros deixarão suas pastas esta semana para se candidatar em outubro ou reforçar campanhas nos estados.
O prazo legal para a desincompatibilização termina no sábado (4 de abril), mas o presidente já convocou para terça-feira (31) uma reunião com titulares e substitutos — uma passagem de bastão coletiva que Lula pretende concluir em um único dia.
Recorde histórico nas trocas ministeriais
Nos três governos anteriores com o mesmo calendário eleitoral, o número de saídas se manteve estável: foram 10 ministros no governo Bolsonaro em 2022, o mesmo registrado no segundo mandato de Dilma Rousseff em 2014 e no segundo governo Lula em 2010. Com pelo menos 16 saídas confirmadas — e a situação de quatro titulares ainda indefinida —, o terceiro mandato de Lula ultrapassa todas essas marcas com folga.
O volume elevado tem dois fatores principais, segundo auxiliares do Planalto. O primeiro é o crescimento do número de pastas desde o início do mandato. O segundo é o peso da disputa de 2026, que atrai para a arena eleitoral lideranças que acumularam visibilidade à frente de ministérios estratégicos.
Estratégia de continuidade e as exceções
Para minimizar o impacto das saídas no funcionamento do governo, Lula optou, na maioria dos casos, por promover os próprios secretários-executivos ao posto de titular interino. Há, no entanto, exceções relevantes. No Ministério do Planejamento e Orçamento, o nome indicado para substituir Simone Tebet (PSB) é Bruno Moretti, secretário de Análise Governamental da Casa Civil — portanto, externo à pasta.
Na articulação política, Olavo Noleto, chefe do Conselhão, chegou a ser chamado de “sucessor natural” pela própria Gleisi Hoffmann (PT). Nos últimos dias, porém, Lula sinalizou a aliados que prefere alguém com experiência no Legislativo. A vaga segue em aberto.
A saída mais emblemática é a de Fernando Haddad, que deixou a Fazenda para disputar o governo de São Paulo contra Tarcísio de Freitas — movimento que o presidente considerava estratégico para segurar votos no maior colégio eleitoral do país.
Marqueteiro de Lula também deixa o governo
Nem todos os ministros saem para disputar cargos. O caso mais simbólico é o de Sidônio Palmeira, ministro da Comunicação Social e arquiteto da campanha vitoriosa de 2022. A previsão é que ele deixe o governo apenas no meio do ano para assumir o comando da estratégia eleitoral de Lula em 2026.
A saída de Sidônio reforça a leitura de que a montagem da campanha do presidente já está em curso dentro do próprio governo, antes mesmo da janela eleitoral formal se abrir plenamente.
Com a reunião de terça-feira (31), o Planalto quer encerrar o ciclo de incerteza sobre quem fica e quem sai o mais rápido possível, evitando vácuos de gestão prolongados. O desempenho dos ministérios no segundo semestre, sob novos titulares, será um dos termômetros do capital político disponível para a campanha de reeleição de Lula.
