O climatologista Carlos Nobre foi nomeado pelo papa Leão XIV para integrar o dicastério do Vaticano responsável por debater temas de desenvolvimento humano — e soube da indicação por telefone, durante uma viagem para dar palestra sobre meio ambiente.
Único brasileiro entre os nomeados, Nobre vê na escolha um reflexo da urgência climática global. Para o pesquisador, o futuro da humanidade está em jogo — especialmente nos países tropicais, como o Brasil.
A escolha de Nobre não é coincidência. Com carreira dedicada à Amazônia desde 1983, quando ingressou no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o climatologista é engenheiro eletrônico formado pelo ITA e doutor em meteorologia pelo MIT — referência mundial nos estudos sobre a floresta tropical.
Foi ele quem formulou a hipótese da “savanização” da Amazônia, que prevê a transformação progressiva da floresta em savana como consequência do desmatamento combinado ao aquecimento global. A tese rendeu reconhecimento internacional e colocou o Brasil no centro do debate climático.
O pesquisador também tem histórico de diálogo com o Vaticano. Em 2019, participou do Sínodo da Amazônia e conversou pessoalmente com o papa Francisco sobre a necessidade de incluir a agenda ambiental nas discussões da Igreja Católica.
Para Nobre, a entrada do tema ambiental em um dicastério vaticano amplia o alcance e o peso simbólico da discussão climática global. O papa Leão XIV, segundo ele, também compartilha forte ligação com as questões ambientais. “É preciso unir esforços”, afirmou o climatologista.
O pano de fundo da nomeação é alarmante. O último relatório da ONU, divulgado na semana passada, confirmou que os dez anos mais quentes da história ocorreram recentemente. Nobre interpreta os dados como um sinal direto de risco à segurança humana — em particular nos países tropicais e subdesenvolvidos, que sofrem de forma desigual os efeitos do aquecimento.
A presença de uma das maiores autoridades climáticas do Brasil em um fórum com alcance moral e global como o Vaticano pode dar novo peso às negociações internacionais sobre o clima e à causa da preservação da Amazônia.
Para Nobre, levar a ciência a espaços religiosos e éticos é uma estratégia necessária. A crise climática, argumenta ele, não é apenas um problema técnico — é uma questão de justiça e de sobrevivência, sobretudo para populações vulneráveis nas regiões tropicais do planeta.
