O Irã amplia a pressão sobre o comércio global: além do Estreito de Ormuz, fechado desde o início da guerra, Teerã ameaça mobilizar os houthis para bloquear o Estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho — por onde escoam 12% do petróleo comercializado no mundo por via marítima.
A agência iraniana Tasnim noticiou na quinta-feira (26) que os houthis estariam prontos para assumir o controle do estreito. Neste sábado (28/03), o grupo lançou mísseis contra Israel pela primeira vez desde o início da guerra — ataque interceptado por Israel.
Um bloqueio da passagem agravaria uma crise de energia já fora do controle, com o barril de Brent acima de US$ 100 impulsionado pelo fechamento de Ormuz.
Um segundo estreito na linha de fogo
Situado entre o Iêmen, Djibuti e Eritreia, o Estreito de Bab el-Mandeb conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Aden e ao Oceano Índico. Com 115 km de extensão e apenas 36 km de largura, a passagem tornou-se essencial ao comércio mundial após a abertura do Canal de Suez, em 1869. Hoje, o corredor movimenta cerca de um quarto de todo o comércio marítimo do planeta, com 4,5 milhões de barris de petróleo transitando diariamente por suas águas, além de remessas de gás natural liquefeito (GNL).
Com o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã no início da guerra, que bloqueou 20% do petróleo mundial e empurrou o Brent de US$ 70 para mais de US$ 100 o barril, Bab el-Mandeb assumiu papel ainda mais estratégico. A Arábia Saudita passou a escoar sua produção pelo porto de Yanbu por essa rota. Exportações russas de petróleo com destino à Ásia também transitam pelo local.
A fonte militar iraniana que falou à Tasnim foi direta: “Se houver necessidade de controlar o Estreito de Bab el-Mandeb para punir ainda mais o inimigo, os heróis do Ansar Allah do Iêmen estão totalmente preparados para desempenhar um papel fundamental.” Um dia antes, a mesma agência já havia publicado o aviso de que os americanos deveriam “ter cuidado para não adicionar outro estreito aos seus problemas”.
Diante das ameaças, a Administração Marítima dos EUA emitiu alerta oficial na quinta-feira: “Os houthis continuam a representar uma ameaça aos ativos dos EUA, incluindo embarcações comerciais, nesta região” — ressaltando que o grupo não atacava navios comerciais desde o cessar-fogo de outubro de 2025, mas não havia abandonado suas capacidades militares.
Histórico de ataques e novo cenário de escalada
O nome árabe do estreito — “portão das lágrimas” ou “portão da dor” — não é coincidência. Entre 2008 e 2012, piratas somalis atacaram embarcações na região. Depois, de novembro de 2023 a janeiro de 2024, os houthis atacaram mais de 100 navios comerciais com mísseis e drones em resposta à guerra de Israel contra o Hamas, afundando duas embarcações e matando quatro marinheiros. Os ataques forçaram grandes armadoras a desviar rotas pelo sul da África e só cessaram após o cessar-fogo entre Israel e Hamas mediado pelos EUA.
Agora, com a guerra envolvendo EUA, Israel e Irã, o grupo volta a ameaçar. Um dirigente houthi disse à Reuters, em anonimato, que o grupo está “militarmente pronto” para agir em apoio a Teerã: “Estamos com todas as opções à nossa disposição. A decisão sobre o momento cabe à liderança.” O líder Abdul Malik Al-Houthi também reforçou que o grupo responderia militarmente caso os desdobramentos da guerra exigissem.
Com 20 mil marinheiros ainda retidos em navios no Golfo Pérsico desde o fechamento de Ormuz, um bloqueio de Bab el-Mandeb jogaria mais combustível na crise. As consequências já vão além do petróleo — fertilizantes, medicamentos e semicondutores sentem o impacto do bloqueio de Ormuz — e um segundo estreito fechado ampliaria essa cascata para produtos que chegam ao Brasil pelo Mar Vermelho.
