A revista britânica The Economist publicou nesta quinta-feira (26/3) uma análise afirmando que o Brasil possui uma vantagem estratégica única diante da crise energética global: a indústria de biocombustíveis mais sofisticada do mundo.
O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, iniciado em 28 de fevereiro, elevou o barril de petróleo Brent a mais de US$ 110 e bloqueou o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da energia mundial.
Enquanto os EUA registram altas de 30% a 40% nos combustíveis, o Brasil amorteceu o impacto: gasolina subiu 10% e diesel, 20% desde o início do conflito.
A estrutura que diferencia o Brasil
A análise da The Economist destaca que o país não chegou despreparado ao atual choque energético. Ao longo de décadas, o Brasil construiu uma matriz com mistura obrigatória de 30% de etanol à gasolina e 15% de biodiesel ao diesel — percentuais entre os mais altos do mundo.
A frota nacional reforça essa proteção: três quartos dos veículos leves possuem tecnologia flex-fuel, capaz de rodar com qualquer mistura entre gasolina pura e etanol 100%. Essa combinação reduz a dependência de combustíveis fósseis importados e isola o país de choques externos.
Quando o barril de petróleo ultrapassou US$ 100 pela primeira vez desde 2022, no início do conflito, analistas já alertavam que a estrutura de biocombustíveis seria o principal escudo do Brasil — como o Tropiquim reportou desde os primeiros dias da guerra.
Raízes nos anos 1970
A estratégia não nasceu da noite para o dia. A The Economist lembra que o programa teve origem na crise do petróleo dos anos 1970, quando o Brasil importava 80% do combustível que consumia e o embargo árabe sufocava a economia.
A solução foi transformar o excedente de cana-de-açúcar em etanol — uma aposta que se consolidou como pilar da política energética nacional. Décadas depois, o modelo se expandiu com o biodiesel derivado principalmente de soja, em programa impulsionado pelo governo federal a partir de 2023.
Os números concretos dimensionam a diferença. Na semana de 20 de março, o diesel havia subido mais de 11% nos postos brasileiros, com o barril beirando US$ 115 — exatamente os dados que a The Economist utilizou na comparação com os Estados Unidos.
Com o diesel chegando a R$ 7,30 e a gasolina acumulando alta de R$ 0,40 por litro desde o início da guerra, o governo federal passou a cercar postos por práticas abusivas de preço — mas o impacto ainda é significativamente menor do que o registrado nos EUA e em outras economias sem proteção equivalente.
A revista destaca o papel do presidente Lula, que “como poucos abraçou os biocombustíveis com tanta intensidade”. Para o Planalto, o modelo resolve dois problemas simultaneamente: reforça a soberania energética do país e permite reduzir emissões de gases de efeito estufa sem antagonizar o setor agrícola, fornecedor das matérias-primas.
O modelo começa a despertar interesse internacional: Índia e Japão estudam adaptar a experiência brasileira à sua própria realidade. Ainda assim, a The Economist faz uma ressalva — os biocombustíveis não eliminam totalmente os custos provocados pela alta do petróleo, mas colocam o Brasil em posição claramente mais favorável do que a maioria das economias globais.
