O governo federal fechou acordo com o Instituto Butantan e a farmacêutica MSD para produzir no Brasil o pembrolizumabe, uma das imunoterapias com mais indicações aprovadas no mundo — autorizada para quase 40 tipos de câncer pela Anvisa.
O anúncio, feito nesta quinta-feira (26), prevê transferência de tecnologia ao longo de até dez anos. O objetivo é baratear o medicamento e expandir seu uso no SUS, onde hoje está disponível apenas para melanoma avançado.
Como a imunoterapia age no organismo
Ao contrário da quimioterapia tradicional, que ataca diretamente as células cancerígenas, o pembrolizumabe age potencializando o sistema imunológico. Tumores desenvolvem mecanismos para se camuflar do organismo — ativando proteínas que funcionam como freios das defesas imunes.
“As células tumorais conseguem se esconder do sistema imune. Elas ativam mecanismos que impedem o organismo de reconhecê-las como uma ameaça”, explica o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation.
O medicamento bloqueia esses mecanismos e permite que o sistema imunológico volte a identificar e atacar o tumor. Quanto maior a carga mutacional do tumor, maior a chance de resposta ao tratamento. Os resultados, porém, variam conforme o tipo de câncer.
“Em algumas doenças o benefício é muito relevante. Em outras, é mais modesto. Ainda assim, é um tratamento considerado seguro e amplamente utilizado”, diz Stefani.
O entrave do preço no sistema público
Na rede privada, uma única sessão do pembrolizumabe pode custar até R$ 97 mil. Como o tratamento é administrado de forma contínua, o valor total pode atingir centenas de milhares de reais ao longo do acompanhamento.
No SUS, o financiamento da oncologia opera por valores fixos por paciente — um descompasso estrutural com os preços praticados pela indústria farmacêutica. Hoje, apenas pacientes com melanoma avançado têm acesso ao medicamento pelo sistema público. Para cânceres de pulmão, mama, esôfago e colo do útero, a incorporação ainda aguarda análise da Conitec, que pondera benefícios clínicos e impacto financeiro antes de qualquer decisão.
A parceria com o Butantan acontece em meio a um movimento mais amplo de pressão pelo acesso à imunoterapia no SUS. Semanas antes do anúncio, o Senado aprovou projeto que acelera a entrada desses medicamentos no sistema público — mas especialistas já advertiam que a mudança legal não garante acesso real sem uma reestruturação do modelo de financiamento. Leia mais sobre o projeto aprovado no Senado e as limitações do financiamento.
No terreno das histórias concretas, o fosso entre aprovação regulatória e acesso efetivo já tem rosto. Dias antes do anúncio, Francisca, paciente com câncer de pulmão em estágio IV, aguardava pela segunda vez uma decisão judicial para conseguir o mesmo pembrolizumabe — aprovado pela Anvisa, usado amplamente na rede privada, mas fora do alcance pelo SUS para seu diagnóstico. Acompanhe o caso de Francisca.
Para Stefani, a produção nacional pode ser um passo relevante, mas não suficiente por si só. “Se você consegue reduzir o custo, abre-se a possibilidade de ampliar o acesso. Mas não basta só ter o medicamento. É preciso que ele caiba no modelo de pagamento do SUS ou que se criem mecanismos para viabilizar esse uso”, afirma.
A transferência de tecnologia da MSD ao Butantan ocorre em um horizonte de até dez anos — prazo que reflete a complexidade da produção do biológico e os estágios necessários para que o medicamento passe a ser fabricado integralmente em solo brasileiro.
