Um relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado pelas Nações Unidas nesta segunda-feira (23), confirma o que os cientistas já temiam: os dez anos mais quentes da história da Terra foram justamente os últimos dez.
Em 2025, a temperatura média global ficou 1,43°C acima dos níveis pré-industriais — colocando o ano entre o segundo e o terceiro mais quente já registrados. O recorde ainda pertence a 2024, quando o planeta ultrapassou pela primeira vez a barreira de 1,5°C.
Planeta retém mais energia do que consegue liberar
Além da temperatura, o relatório traz um indicador inédito no centro da análise: o desequilíbrio energético da Terra atingiu, em 2025, o maior nível desde o início das medições, em 1960. Pela primeira vez, a OMM coloca essa métrica como referência central do estado do clima global.
O desequilíbrio mede a diferença entre a radiação solar que entra no sistema climático e a que é devolvida ao espaço. Quando o planeta retém mais energia do que libera, esse excesso age como combustível — intensificando fenômenos naturais e tornando eventos extremos mais frequentes e mais violentos.
Cerca de 91% desse calor extra é absorvido pelos oceanos. Nas últimas duas décadas, os mares passaram a reter, a cada ano, o equivalente a 18 vezes todo o consumo anual de energia da humanidade. O calor armazenado nos oceanos atingiu níveis recordes, e a taxa de aquecimento marinho mais do que dobrou em relação ao período entre 1960 e 2005.
Os oceanos também absorvem dióxido de carbono da atmosfera — processo que altera a química da água e agrava impactos ambientais costeiros e marinhos.
Regiões polares em colapso lento
Os efeitos dessa energia acumulada chegam às extremidades do planeta. A extensão do gelo marinho no Ártico segue em níveis historicamente baixos, enquanto na Antártida a cobertura de gelo registrou o terceiro menor valor já medido.
No Brasil, o aquecimento se traduziu em temperaturas acima da média na maior parte do território ao longo de 2025, com secas intensas afetando diversas regiões. O desequilíbrio energético global já havia se manifestado de forma dramática antes disso, com as chuvas históricas que devastaram o Rio Grande do Sul.
Mesmo com a transição para La Niña — fenômeno que costuma provocar resfriamento temporário nas temperaturas globais —, o aquecimento não arrefeceu. A persistência do calor em um ano de La Niña reforça a tese de que o planeta pode estar se ajustando a um novo normal: sistematicamente mais quente.
O cenário tende a se agravar nos próximos anos. Modelos europeus apontam 80% de chance de um El Niño forte se formar até agosto de 2026, o que pode tornar o período seguinte ainda mais quente do que o recorde atual.
Diante do quadro, o governo federal lançou o Plano Clima com metas de redução de emissões e adaptação até 2035 — a resposta brasileira a uma crise que o relatório da OMM mostra estar se aprofundando a cada ciclo anual.
